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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

O Carnaval de Veneza

O Carnaval de Veneza é uma das festas carnavalescas mais tradicionais do mundo, além de ser a mais antiga em continuidade, pois embora em outras cidades europeias desde a Idade Média se realizavam tais festejos, em Veneza essa tradição fincou raízes. Neste texto procurei contar um pouco da história do carnaval veneziano, remotando as suas origens medievais até ele despontar como uma grande festa na Idade Moderna, a qual hoje vemos alguns traços ainda vivos. Mas além de realizar essa síntese histórica, também busquei avaliar alguns aspectos de ordem cultural e social para entender o carnaval.

Devido a ter encontrado poucas fontes em língua portuguesa, espanhola e inglesa, e por saber ler pouco em italiano, então não pude me aprofundar mais nesse texto para contar a história do carnaval veneziano. 

Introdução:

Preferi não abordar a origem do Carnaval em si, pois ainda existem debates sobre quando realmente tais festejos se iniciaram, pois alguns historiadores alegam que o Carnaval tenha sofrido influência de festas romanas como os bacanais, saturnálias, lupercálias e as cadenas; outros mencionam uma origem mais antiga, remontando a Grécia Antiga, ao Egito Antigo, a Judeia, a Babilônia, etc. Já outros defendem que o Carnaval foi um desenvolvimento das "Festa dos Doidos" ou "Festa dos Loucos", "Festa do Burro" e a "Festa dos Inocentes", festejos surgidos na Idade Média, com base na cultura romana. Para esse estudo preferi abordar as festas medievais como fonte de inspiração para o Carnaval ou até mesmo como seu sinônimo naquele tempo.

No entanto, de antemão alguns leitores devem está se indagando como que na Idade Média, chamada de "Idade das Trevas", "tempo de misticismo e crendices", "época do grande temor a Deus e ao diabo" as pessoas ainda assim se divertiam no Carnaval? Como a Igreja Católica tolerou esse festejo? 

Primeiramente é preciso saber que a Idade Média se iniciou em 476 e perdurou até 1453, tendo durado quase mil anos. Logo, em quase mil anos de história não podemos pensar que as sociedades, seus hábitos, comportamentos e culturas se mantiveram estagnados, isso normalmente é um equívoco que pensamos, onde imaginamos o "homem medieval" como sendo uma espécie de abstração generalizante para todo esse período (LE GOFF, 1989, p. 8). Ou seja, que o homem medieval do século V era igual ao do século X, que era igual ao do século XII, que por sua vez era o mesmo no século XV. 

Por esse viés é preciso salientar que o pensamento cristão evoluiu ao longo do período medieval, ora se tornando mais conservador, e ora apresentando tolerância para alguns atos. Por outro lado, pensar que todas as pessoas que viveram na Idade Média eram totalmente submissas ou crédulas aos dogmas da Igreja Católica, é uma proposição equivocada. No ano de 1054 ocorreu o Grande Cisma do Oriente, no qual resultou na origem da Igreja Ortodoxa Grega, com sede em Constantinopla, então capital do Império Bizantino. O cisma ocorreu, pois os bispos orientais passaram a discordar de alguns posicionamentos do papa e dos bispos ocidentais. Um dos pontos que ele alegaram, foi o fato de que a Igreja Romana estava se distanciado dos ensinamentos antigos.

Por outro lado, havia movimentos milenaristas e heréticos que pregavam visões próprias sobre o cristianismo, os quais embora fossem combatidos pela Igreja, eles conseguiram difundir suas ideias em diferentes séculos do medievo (FALBEL, 1976, p. 33). Le Goff (1989, p. 10) aponta que no século XIII achamos menções que Deus não existiria, embora sejam pouquíssimas, mas é um fato a ser considerável, pois havia gente que questionava a fé.

Entretanto, também é preciso considerar que havia gente que acreditava que os padres, bispos e os papas tinham o poder de perdoar os mais distintos pecados e na realização da extrema-unção, todos os seus pecados seriam perdoados e sua alma iria ao Paraíso. Logo, não importa o que você tenha feito em vida, mas se você se arrepende-se profundamente de forma verdadeira, Deus através do clérigo lhe daria o perdão. Um exemplo para isso, diz respeito as Cruzadas, nas quais os cruzados recebiam o perdão por seus pecados, em alguns casos antes mesmo de irem para guerra. Logo, se compararmos os crimes de guerra cometidos por eles, à gula e a promiscuidade no Carnaval, não seriam nem tão pecaminosos. 
 
Por esse viés, a chamada "Festa do Loucos", "Festa do Burro", "Festa dos Inocentes", etc., começaram a se popularizar pela Baixa Idade Média (séc. XI-XV) embora práticas parecidas já existissem antes na Europa cristianizada. Essa popularização curiosamente se deu por influência de alguns clérigos, e pelo fato da Igreja, tentar utilizar tais festejos como forma de aproximar a população da sua liturgia.

Pintura medieval retratando a "Festa dos Loucos".
"As Festas dos Loucos, “festum stultorum, fatuorumou follorum”, do Burro e dos Inocentes, celebradas, consoante os locais, em diversos dias do referido período, quase se identificam e confundem. Promovidas pelo baixo clero, em particular pelos subdiáconos, são testemunhadas desde o final do século XII até ao do século XVI, com raros prolongamentos pelo século seguinte, quando as constantes condenações e proibições dos vários concílios episcopais, aliadas à intervenção de um poder real centralizado, que agora se leva mais a sério e dispensou já o espelho de verdade que era o bobo da corte, as restringem ou fazem desaparecer, pelo menos das igrejas, dando porventura origem às confrarias seculares, as “companhias dos loucos”, que, procedentes agora da burguesia, as continuarão sob a forma de festejos carnavalescos laicos". (BORGES, 2001, p. 32-33). 

Nestes festejos carnavalescos, as pessoas se fantasiavam, usavam máscaras, cometiam a gula descaradamente, cometiam luxúria, proferiam sacanagens e blasfêmias, cantavam, dançavam, jogavam, realizavam travessuras, faziam paródias e alegorias. Elegiam-se os "reis carnavalescos", ensaivam-se missas com citações esdrúxulas, cômicas, blasfêmicas e extravagantes como no caso da "Festa do Burro", onde pessoas imitavam o barulho do animal; onde "bispos" montavam em burros e encenavam uma procissão, onde os foliões o seguiam cantando, gargalhando e proferindo obscenidades ou asneiras.

Representação da "Festa do Burro", na qual se elegia um "papa dos bufões", que por sua vez saía montado em um burro ou mula. 
Tais festejos também era um momento onde as pessoas poderiam se divertir de certa forma sem pudores, onde alguns perdiam a vergonha, onde alguns se deixavam se levar pela algazarra. Por outro lado, tais festejos também eram uma forma das pessoas desafiarem o controle do Estado e da Igreja (FOUCAULT, 1972, p. 17). A loucura e o louco se tornam meios de crítica. No entanto, entende-se aqui loucura e louco não no sentido patológico, mas no sentido de contraversão, de ser incomum, de ser anormal. O louco é aquele que zomba das autoridades e das regras, é aquele que vive de forma alegre e desinibida.

Percebe-se também como Borges (2001) assinalou, que o baixo clero em alguns casos era responsável por promover tais festejos e até mesmo participar destes. Se encontram relatos medievais de bispos de algumas cidades reclamando que diáconos, subdiáconos, coroinhas, freis, frades e até padres estavam envolvidos nas algazarras carnavalescas. 


“Como escreve, em 1445, o deão da Faculdade de Teologia da Universidade de Paris, numa carta condenatória dirigida aos bispos e cabidos de França: “Padres e clérigos podem ver-se usando máscaras e aparências monstruosas nas horas do ofício. Dançam no coro vestidos de mulheres, lacaios ou menestréis. Cantam canções licenciosas. Comem chouriços pretos no altar enquanto o oficiante diz a missa. Jogam aí aos dados. Incensam com um fumo fétido procedente da sola de sapatos velhos. Correm e pulam pela igreja, sem corar da sua vergonha. Viajam finalmente pela cidade e seus teatros em miseráveis carruagens e carroças; e suscitam o riso dos seus companheiros e circunstantes através de representações infames, com trejeitos indecentes e versos torpes e libertinos”. (BORGES, 2001, p. 33). 


Pintura moderna, retratando a Festa dos Loucos.
O intuito da Igreja com esses festejos pagãos era de utilizá-los como forma de aproximar os povos recém-convertidos, pois do século V ao século XII a Europa ainda estava sendo cristianizada. Se o Carnaval não era um festejo originalmente associado ao catolicismo, assim como, o Halloween também não o era, ambas essas festas de origem pagã foram incorporadas ao catolicismo a fim de aproximar distintas práticas culturais. Por exemplo, a própria escolha da data de 25 de dezembro para ser o Natal, advém de uma escolha para se aproximar os povos pagãos do cristianismo. 

No entanto, não significa que todo mundo concordasse com tais festejos devassos e imorais. Houve épocas que a Igreja chegou a proibir tais festas carnavalescas quando essas deixaram de ser festejos apenas para diversão e se tornaram cada vez mais devassas, imorais e profanas, mas tais proibições nunca chegaram a se efetivar.

Mas fica uma pergunta: para que servia o carnaval? Tal pergunta possui distintas respostas, mas não irei apresentar todas, pois aqui é apenas uma introdução. Todavia, na Idade Média entre os séculos XI e XIII algumas pessoas pensavam que se elas não saciassem suas vontades, impulsos e desejos carnais, isso poderia deixá-las loucas, logo, o carnaval seria uma forma de colocar tudo isso para fora. Uma forma de aliviar o corpo e a alma. Tal pensamento também se manteve em épocas posteriores, e há quem pense assim atualmente.

“Ainda em 1645, numa igreja franciscana, o Dia dos Inocentes foi comemorado, segundo relata em carta a Gassendi um seu discípulo livre-pensador, com a entrega da celebração aos irmãos leigos, pedintes, cozinheiros e jardineiros, com as vestes do avesso, os livros voltados para baixo, cascas de laranja como óculos, soprando as cinzas dos incensórios sobre os rostos e cabeças uns dos outros e cantando a liturgia num palavreado incompreensível”. (BORGES, 2001, p. 33). 

Seguindo essa linha de pensamento, a Igreja instituiu que os festejos carnavalescos deveriam anteceder o período da Quaresma. A quaresma no calendário cristão representa os quarenta dias que antecedem a Quinta-feira Santa, onde se inicia a Páscoa. Esses quarenta dias simbolizam o tempo que Jesus Cristo vagou sozinho pelo deserto, em profunda reflexão enquanto era tentando por Satanás em pessoa. 

Durante a quaresma os cristãos eram recomendados a praticarem jejuns regulares, não comer nenhum tipo de carne vermelha, não se embriagar, festejar; fazer abstinência sexual, praticar caridades, ir com regularidade as missas e orar mais vezes. Era um período de penitência de forma a lembrar que a Páscoa estava chegando. Na teoria tais recomendações ainda se mantém, embora sejam poucos os católicos hoje que as seguem arrisca.

“A outra concepção e a do homem penitente. Mesmo que não seja monge — o penitente por excelência —, mesmo que não seja atormentado pela ideia de que o trabalho e uma penitência, o homem da Idade Média, condicionado pela concepção do pecado que lhe foi inculcada, procura na penitência o meio de assegurar a sua salvação. Mesmo que não adira as formas extremas de penitencia representadas pela autoflagelação, privada (como no caso de S. Luís, rei de França) ou pública (grupos de flagelados foram o motivo principal das crônicas, tanto em 1260 como em 1349-1350, depois da primeira vaga de peste negra), o homem da Idade Média está sempre pronto a responder com uma penitencia excepcional a uma calamidade ou a um acontecimento perturbador. A partir do IV Concílio de Latrão (1215), era obrigação de todos os cristãos irem, pelo menos uma vez por ano, a confissão e fazerem depois a penitência que dai derivava e que institucionaliza e torna regular a prática da penitência”. (LE GOFF, 1989, p. 13).  

Se a quaresma era uma forma de penitência, o carnaval era um festejo para se divertir e extravasar antes do início desses quarenta dias de mortificação. Daí o carnaval ser comemorado na chamada Terça-feira Gorda e na Quarta-feira de Cinzas, embora que posteriormente aumentou-se os dias desse festejo. O carnaval surge como uma forma de amenizar as dificuldades da vida das pessoas medievais, e também como forma de extravasar seus desejos para que assim iniciassem a quaresma e o restante do ano, estando mais leves e menos atiçados pelos desejos pecaminosos. 

O carnaval de Veneza na Idade Média: 

a) origem: 
 
Tendo compreendido um pouco da realidade do carnaval na Idade Média, agora vejamos quando o de Veneza começou. Não existe um consenso propriamente de quando o carnaval veneziano teve início. Com base em documentos, existe um datado de 2 de maio de 1268, no qual menciona pessoas mascaradas participando de um jogo onde atiravam ovos. (SHAFTO, 2009, p. 31). 

Uma outra versão sugere que o carnaval começou a ser celebrado no século XII, após a vitória do doge (equivaleria ao presidente) Vitale Michiel II, o qual governou de 1156-1172. No ano de 1162, Ulrico II, Patriarca da Aquileia, rebelou-se contra a decisão do papa Adriano IV em doar as terras da Dalmácia ao Patriarcado de Grado. Ulrico II reuniu alguns de seus vassalos e invadiram a cidade de Grado. Em resposta, o doge Vitale II enviou o exército veneziano para libertar Grado e aprisionar o patriarca da Aquileia. 

Ulrico II foi solto e retornou para Aquileia, mas passou a pagar um tributo anual de 1 touro, 12 porcos e alguns pães, os quais eram ofertados ao povo veneziano na terça-feira de carnaval, a qual celebrava essa vitória sobre a traição de Aquileia. A cabeça do touro era cortada e exibida pela praça. Daí surgiu a expressão veneziana "cortar a cabeça do touro", que significa: "por fim num problema". A tradição de exibir a cabeça do touro se manteve até o século XV, enquanto Aquileia ainda continuava a enviar seus tributos a Veneza. Tal espetáculo ficou conhecido como Giovedi Grasso ou em francês Mardi Gras. (SHAFTO, 2009, p. 31). 


Originalmente se chamava Quinta-feira Gorda (Giovedi Grasso), pois antes do século XVI o calendário usado em Veneza ainda era o Calendário Juliano, o qual possui 13 dias a menos do que o Calendário Gregoriano (o qual normalmente usamos em grande parte do mundo). Devido a essa variação de dias, normalmente o dia de carnaval era comemorado na quinta-feira e não na terça-feira, por sua vez, o final do carnaval era na Sexta-feira de Cinzas e não Quarta-feira de Cinzas. 

Todavia, foi ainda na Idade Média que se passou a empregar a palavra carnevale ("livrar a carne"), onde tal palavra remetia a ideia do carnaval preceder a quaresma. Logo, "livrar a carne" era extravasar suas energias e vontades, então, retirar-se para a penitência da quaresma. Daí também se dizer que o carnaval é a "festa da carne", no sentido de se referir aos desejos carnais. (GULEVICH, 2002, p. 305).

b) Normatização do carnaval:

Pelo século XIV se encontram documentos que procuraram regularizar os festejos carnavalescos na cidade, devido ao fato deles estarem se tornando devassos e servindo de acobertamento para atos criminosos. Em 22 de fevereiro de 1339, o governo expediu um decreto que proibia o uso de máscaras durante a noite, pois pessoas estavam aproveitando os festejos carnavalescos para cometerem crimes e atos de vandalismo. (GULEVICH, 2002, p. 306).

Também foram expedidos decretos que proibiam que pessoas mascaradas durante o carnaval portassem qualquer tipo de arma, e também estavam proibidos de entrarem nas igrejas e conventos. Foi proibido que religiosos usassem máscaras o que os foliões se fantasiassem com roupas clericais. Danças próprias do carnaval foram proibidas durante o restante do ano, sendo apenas toleradas durante o carnaval. 

Foi proibido que homens e mulheres usassem roupas do gênero oposto sem ser em época de carnaval. Embora antes fosse proibido, mas alguns estavam aproveitando a liberação no carnaval para continuar a se vestir assim. Em 24 de janeiro de 1458, um novo decreto emitido, proibia que os homens vestidos de mulher entrassem nas igrejas e conventos. (GULEVICH, 2002, p. 306).

Mesmo com tais normatizações às práticas carnavalescas, o carnaval veneziano se manteve ao longo da Idade Média, tornando-se o mais famoso da Itália e um dos mais famosos da Europa. Além dos venezianos, durante o mês de fevereiro, estrangeiros de outras cidades italianas ou de outros países viajavam para Veneza, para participar dos festejos carnavalescos, os quais se antes eram celebrados durante dois dias, passaram a englobar uma semana e até mais dias. 

O carnaval de Veneza na Idade Moderna:

a) O Voo do Turco:

Por volta de 1548 surgiu a origem de um espetáculo que ficou bastante famoso durante o carnaval veneziano. Um jovem turco decidiu andar sobre uma corda bamba que se ligava do mastro de um navio ao campanário da Basílica de São Marcos. O feito foi tão marcante que os venezianos passaram a se referir a aquele evento como o "Voo do Turco" (Svolo del Turco), o qual posteriormente passou a se representando em todo carnaval, tornando-se uma tradição que se mantém até hoje, embora com mudanças. (SHAFTO, 2009, p. 32). 


O "Voo do Turco" era celebrado na terça-feira. Com o tempo, segundo informa Maurizio Vittoria, o espetáculo sofreu algumas mudanças. Por exemplo, o equilibrista começava na torre do campanário, então andava pela corda bamba até o palácio, onde se encontrava o doge e seus convidados. O doge lhe dava flores e/ou poemas, então esse agradecia, fazia uma reverência aos convidados (normalmente autoridades e nobres) e retornava pela corda até o campanário, então acenava para a multidão, concluindo seu espetáculo.

Pintura retratando o "Voo do Turco" e a "Força de Hércules", durante a terça-feira de carnaval na praça de São Marcos.
O espetáculo se tornou tão marcante que a cada ano, os equilibristas e acrobatas procuravam novas formas de surpreender a plateia, modificando o número, tornado-o mais desafiador ou inimaginável. No entanto, houve acidentes e mortes em algumas ocasiões. 

Houve uma época que os equilibristas foram substituídos por um pássaro de madeira que representava uma pomba. Tal pomba era presa num cabo e preenchida com pétalas de flores e confetes, então ela atravessava a praça de São Marcos, liberando as flores e os confetes sobre os foliões. Tal espetáculo ficou conhecido como "Voo da Pomba" (Svolo della Colombina). 


O "Voo do Anjo" realizado hoje em dia.
Posteriormente em data incerta no século XVII, a pomba de madeira foi substituída por uma mulher que usava um vestido com asas de anjo, e assim o espetáculo passou a ser chamado de o "Voo do Anjo". Todavia, hoje é mais comum ver uma mulher trajando um vestido carnavalesco, e que é içada por um guindaste, a qual fica pairando sobre a praça de São Marcos. Se antes tal espetáculo era celebrado na terça-feira, hoje ele marca o início do carnaval veneziano. No ano de 2015 o carnaval veneziano começou oficialmente no dia 31 de janeiro, indo até 17 de fevereiro. 

b) A Força de Hércules:

A "Força de Hércules" (Forze d'Ercole) foi outro espetáculo popular celebrado no carnaval veneziano. Embora retire seu título do nome do icônico herói grego, o espetáculo em si não tinha relação alguma com os mitos de Hércules, mas aludia a sua extraordinária força. Em si, esse espetáculo consiste numa pirâmide humana, onde acrobatas ficam de pé um em cima do outro e formam uma estrutura piramidal, algo visto em alguns espetáculos de hoje, e em alguns circos também. 


Representação da "Força de Hércules".
Devido ao espetáculo consistir em equilíbrio, técnica, mas força bruta também, daí terem o chamado de "Força de Hércules". Além disso, tal espetáculo também era uma homenagem a vitória veneziana sobre a cidade de Aquileia (1162). Segundo a história, os venezianos não dispunha de escadas e armas de cerco para conseguir passar pelas muralhas, então um grupo de soldados teria feito uma pirâmide humana e assim alcançado o topo da muralha.

c) A queima do Pantaleão:

Em algumas épocas do carnaval, a Quarta-feira de Cinzas na qual encerra os festejos carnavalescos, tinha como último espetáculo para marcar seu fim, o uso do fogo. Um boneco gigante, vestido como o personagem do Pantaleão, o qual na commedia dell'arte representava um velho rabugento. Era o estereótipo do velho mercador rico e avarento, embora que em algumas histórias ele fosse bom, perdendo seu lado avarento, e ganhando um tom de bonachão no lugar da rabugice. 


Ilustração do traje do Pantaleão em 1558.
O boneco gigante do Pantaleão era colocado entre duas colunas da praça de São Marcos, então se ateava fogo. E quanto ele queimava as pessoas gritavam: "El va! El va! El va! El Carnevale el va!", que significa: "Acabou! Acabou! Acabou! O Carnaval acabou!". Então os sinos eram tocados. 

No entanto, o interessante de ser a figura do Pantaleão a ser queimada, provavelmente dizia respeito a sua característica, no qual ele personificava a arrogância, avareza e a ganância. Logo, como naquele tempo o carnaval tinha a noção de preceder o início da quaresma, com a qual vinha as mortificações, queimar o boneco do Pantaleão era uma forma de simbolizar a destruição ou desapego da materialidade, e focar-se na fé que representava o período da quaresma. 

d) A influência da Commedia dell'arte:

Outro marco importante no carnaval veneziano foi o surgimento das máscaras que hoje conhecemos. Embora máscaras já fossem usadas desde pelo menos o século XI no carnaval veneziano, mas sob influência do teatro italiano, mais especificamente a Commedia dell'arte, a qual consistiu num movimento teatral onde os artistas normalmente se apresentavam nas ruas, se opondo a comédia erudita ou tradicional que era feita nos teatros. Tais artistas montavam palcos em praças, campos, avenidas, etc.; eram também artistas itinerantes, pois viajavam de cidade em cidade para se apresentar. 


Trajes dos personagens da Commedia dell'arte.
Seu humor era mais debochado, sarcástico e ácido, se comparado ao humor apresentando nas peças no teatro. Os atores se vestiam de mulher, embora houvesse mulheres atuando, pois diferente do teatro inglês não havia proibição as mulheres em serem atrizes. No entanto, um dos marcos desse estilo de comédia, foi o uso e abuso de estereótipos, dos quais ainda hoje conhecemos como o Arlequim, o Doutor, a Colombina, o Pantaleão, o Capitão, etc., os quais acabaram se tornando fantasias carnavalescas. (GULEVICH, 2002, p. 307-308). 

Gravura retratando alguns foliões trajados como personagens da commedia dell'arte.
e) As máscaras e trajes:

O uso de máscaras pelos venezianos não é algo que se originou com o carnaval, em outros festejos públicos e privados já se usavam máscaras. Eram comum os ricos realizarem bailes de máscaras, assim como, o governo autorizava que máscaras fossem usadas em festas públicas desde que não fossem em dias religiosos. Por exemplo, após o dia de Santo Estêvão (26 de dezembro), era autorizado o uso de máscaras até a Quarta-feira de Cinzas. (GULEVICH, 2002, p. 307). 

Exemplo de máscaras atuais no carnaval veneziano. As máscaras atuais do carnaval veneziano não cheguem os estereótipos vistos no passado, e são bem mais coloridas, adornadas e belas.
No entanto, falar das máscaras venezianas é algo complicado, pois seu uso atravessa séculos, logo, houve vários e vários tipos de máscaras que foram comuns na Idade Média, Idade Moderna e na Idade Contemporânea, no entanto, procurei falar um pouco de algumas máscaras. Por exemplo, já fiz menção ao Pantaleão, máscara que representa o rosto de um velho narigudo. É importante salientar que algumas máscaras expressavam estereótipos e preconceitos. 

Entre as máscaras podemos destacar as quais remetiam aos médicos, havendo dois tipos delas: a máscara do doutor (dottore) e a máscara do médico da peste (dottore della peste).  A máscara do doutor era baseada no personagem homônimo da commedia dell'arte, onde retratava um médico gordo, vestido de preto, o qual usava uma máscara que cobria metade do rosto. A máscara possui grande bochechas vermelhas e um nariz preto. Embora que com o tempo foi se tornando toda preta ou ganhando outras cores.


A fantasia do doutor.
Na commedia dell'arte o Doutor representa o intelectual chato e soberbo, pois orgulha-se de seu conhecimento e sua posição social. No entanto, no que diz respeito ao traje e a máscara do Médico da peste, a sua máscara é considerada uma das mais estranhas e feias do carnaval veneziano, devido a sua aparência lembrar um longo bico bizarro. (GULEVICH, 2002, p. 307). 


Traje e máscara do médico da peste.
Essas máscaras não são uma invenção teatral ou carnavalesca, mas são baseadas nos trajes que alguns médicos usaram durante os grandes surtos da peste negra no século XIV. Na época se acreditava que a peste poderia ser transmitida pelo ar, logo, suas máscaras longas serviam como uma espécie de "respiradouro", pois nas pontas eles colocavam algumas plantas aromáticas que supostamente manteriam afastado os ares pestilentos daquela praga, enquanto usassem tais máscaras. 

Outra máscara famosa, trata-se da bauta. A bauta consiste numa máscara branca, que não possui boca, mas seu formato permite que o som da voz seja alterado. Junto a máscara usa-se um chapéu preto de três pontas, e um véu ou capa preta. O restante do traje pode ser totalmente preto ou ter outras cores. A bauta poderia ser usada por homens e mulheres, mas hoje é mais comum ver homens usando esse tipo de máscara e fantasia. (SHAFTO, 2009, p. 33). 



Homem usando um elegante traje com a máscara bauta.
A partir do século XVIII a bauta se tornou uma das máscaras mais populares, pois escondia o rosto e o seu traje também não era tão chamativo como outras vestes carnavalescas. Homens e mulheres gostavam de usá-los não apenas no carnaval, mas em bailes de máscaras.

No caso das mulheres havia uma máscara que se tornou popular no carnaval, era chamada de moretta. Essa máscara surgiu na França, mas, logo, se popularizou em Veneza. Consiste numa máscara preta em formato oval. Ela não possui abertura para a boca, e quando se fala, as palavras saem diferente e as vezes incompreensível. Era uma máscara reservada apenas as mulheres.



Ilustração de uma mulher usando a máscara moretta.
Além do uso dessa máscara preta, as mulheres costumavam usar um véu para encobrir o restante da cabeça. Já o vestido, poderia variar seu estilo e cores, necessariamente não precisava combinar com a máscara. No entanto, mulheres jovens e solteiras eram proibidas de usarem tanto a moretta quanto a bauta, pois poderiam assim se galantear para algum homem solteiro ou casado. A ideia de casar virgem ainda perdurava na Idade Moderna, principalmente entre as famílias mais tradicionais. (SHAFTO, 2009, p. 34). 

Uma máscara que foi bastante espalhafatosa, foi a gnaga. Nem tanto por sua aparência, mas pelo traje que a acompanhava e o propósito de seus usuários. A gnaga era uma máscara que lembrava um rosto feminino maquiado, mas bastante feio, já que se tratava de uma sátira as mulheres. No entanto, a grande questão dessa máscara, diz respeito ao fato que apenas os homens a usavam. Um fato curioso é que o nome "gnaga" vem de "gnao", onomatopeia em italiano para se referir ao miado do gato. Se em português falamos "miau", os italianos falam "gnao".



Desenho do século XVIII retratando um homem vestido de mulher, usando a gnaga.
A gnaga era uma forma dos homens se vestirem de mulher durante o carnaval, algo que se vê hoje em dia, mas já era praticado na Idade Moderna e até na Idade Média, como visto na introdução deste texto. Os homens se vestiam com vestidos, normalmente usavam cores berrantes, ou se vestiam de forma desengoçada. Então arrumavam os cabelos, ou colocavam perucas, e vestiam a máscara, e saíam pelas ruas fazendo piadas e cantando os outros homens. 

No entanto, alguns homossexuais aproveitavam esse disfarce para poderem se libertar das amarras morais da sociedade da época, pois embora o homossexualismo fosse tolerável, mas não era permitido que os gay agissem de forma afeminada publicamente, ou tivesse contanto com outros homens, como andar de mãos dadas ou beijar. 

Uma fantasia bastante estereotipada era a do "homem selvagem" (omo selvadego). Sendo na Idade Moderna que a expansão mercantilista e colonial dos europeus se espalharam pelo mundo, eles acabaram se deparando com povos e civilizações em diferentes estágios de desenvolvimento, dos quais muitos eram vistos como bárbaros primitivos. Logo, com base nestes povos "selvagens" encontrados nas Américas, África e Ásia, criou-se essa fantasia do "homem selvagem". 


Três músicos trajados como "homens selvagens". Pietro Bertelli, 1642.
A fantasia do "homem selvagem" não tinha um modelo propriamente, ela poderia variar de acordo com a criatividade da pessoa. No entanto, havia alguns acessórios específicos como: usar peles de animais, pintar o rosto ou usar máscaras com grandes olhos e bocas; usar peruca e barba postiça; usar penas, folhas e galhos; carregar clavas ou pedaços de pau, etc.

Por fim, para encerrar essa seção, falarei de dois trajes bastante conhecidos: o Arlequim (arlecchino) e a Colombina. O Arlequim surgiu na commedia dell'arte personificando o serviçal jocoso, pateta e travesso. Em algumas comédias, ele trabalha para o Pantaleão ou o Doutor. O Arlequim usava uma extravagante roupa colorida feita de retalhos, e usava uma máscara preta que as vezes lembra a face de um demônio, pois isso recorda a suas travessuras. No entanto, ele não é um personagem malvado, embora seja feito de tolo pela Colombina e outros personagens da comédia. No carnaval ele se expressa como a personificação do palhaço ou do bobo da corte medieval. 


Pintura retratando o Arlequim e a Colombina.
Na commedia dell'arte a Colombina é uma personagem serviçal como o Arlequim. Ela é bem humorada, encantadora e as vezes maliciosa, pois gosta de fofocar e proferir piadas maliciosas. Ela possui um interesse romântico pelo Arlequim. A Colombina originalmente trajava uma roupa colorida espalhafatosa como a do Arlequim, sendo feita de retalhos. Ela também usava uma máscara preta ou branca, e um pequeno chapéu branco que combinava com seu avental. A Colombina também era conhecida por outros nomes: Arlequina (Arlecchina), Corallina, Ricciolina, Camilla, Lisetta, Pombinha, etc.

As máscaras e roupas que conhecemos hoje no carnaval veneziano, são um legado surgido no século XIX e difundido pelo XX. O carnaval veneziano já não é uma festa tão popular como foi no passado. Na prática aquelas pomposas e belas roupas custam muito caro, e nem todo mundo tem dinheiro para se fantasiar daquela forma, daí as fantasias e máscaras serem um dos grandes destaques atuais da festa veneziana. 

f) Os "grupos de meias":


Os chamados "grupos de meias" (compagnie della calza) surgiram no século XV a partir de grupos de amigos que pertenciam a burguesia ou a nobreza. Foram comuns até o século XVI. Com o tempo esses grupos cresceram e ganharam normas, tornando-se parte recorrente dos festejos.


Um "grupo de meias". Litogravura de 1856.
Os "grupos de meias" recebiam esse nome, pois seus participantes além de usarem máscaras e fantasias, eles se identificavam com base no padrão de suas meias longas. Cada grupo possuía seu próprio padrão.

Pintura retratando "grupos de meias".
Os "grupos de meias" realizavam festas particulares, apresentações de música, dança, teatro, malabarismo, acrobacia, mágica, etc. Realizavam desfiles e jogos, como também prestavam homenagens aos políticos, nobres e alguns feitos notáveis da história veneziana. Pelo fato de pertencer a pessoas da alta sociedade, era comum se prestar homenagens a outros membros desse meio. 

g) Caçada ao touro: 

A caçada ao touro (cazzo del toro) adveio dos tributos que o Patriarcado de Aquileia oferecia a Veneza até o século XV. Os tributos terminaram mas a tradição de se caçar e matar um touro, continuaram. Essas touradas foram bastante populares nos séculos XVII e XVIII, chegando ao fim no começo do XIX.

Gravura retratando a caçada ao touro durante o carnaval.
Inicialmente a caçada era celebrada na terça-feira gorda, mas posteriormente passou a ser realizada durante quase todos os dias de carnaval, que começava na segunda-feira anterior ao início da quaresma, logo, o carnaval durava dez dias. Apenas na sexta-feira não se realizava a caçada. 


La festa de Giovedi di Grasso. Giacomo Franco, 1610. 

Não consegui encontrar detalhes de como ocorria essa caçada, no entanto, ao fim dessa, o touro era morto e sua carne era oferecida ao Senado. A população as vezes recebia pão ou parte da carne. 
 
“As imagens do banquete associam-se organicamente a todas as outras imagens da festa popular. O banquete é uma peça necessária a todo regozijo popular. Nenhum ato cômico essencial pode dispensá-lo.” (BAKHTIN, 1999, p.243).
 
h) O Mattaccino:

O mattaccino ou frombalotore era como se chamavam os homens que atiravam ovos recheados com água de flores. Eles praticavam um jogo chamado de "jogo dos ovos" (gioco della ova), o qual parece ter existido desde a Idade Média. Nesse jogo, que na verdade tratava-se mais de uma travessura, os mattaccino atiravam esses ovos perfumados nas casas das mulheres que desejavam galantear ou tomar como amante. 


Gravura retratando o mattaccino a direita.

As vezes também atiravam esses ovos nas próprias mulheres e quando essas eram noivas ou casadas, eles atiravam nos noivos ou maridos delas, de forma a debochar deles. Os mattaccino atiravam os ovos com as mãos ou com estilingues. Normalmente andavam em grupos, pois muitos não gostavam de suas travessuras, então para evitar que fossem agredidos ou emboscados, andavam acompanhados. Usavam roupas simples, com orelhas ou penas. Carregavam uma bolsa na barriga, onde guardavam os ovos perfumados. Alguns mais travessos atiravam ovos de verdade ou ovos podres.

i) O espetáculo de fantoches:

Espetáculos de fantoches (Spettacolo di burattini) eram muitos populares na Europa desde a Idade Média, sendo realizados em diversas ocasiões, no entanto, eles se popularizaram durante o carnaval veneziano. A maioria das apresentações tinham um tom cômico, variando do humor tolo, sarcástico e malicioso. Os bonecos podiam representar personagens da commedia dell'arte ou estereótipos. 



Cena de um espetáculo de fantoches.
Hoje o espetáculo de fantoches são considerados espetáculos para crianças, mas por séculos eles foram principalmente voltados para o público adulto. Ainda hoje em Veneza eles são realizados em algumas ocasiões.

j) Jogos de cartas:


Entre alguns dos jogos realizados durante o carnaval veneziano, estavam os jogos de cartas (giochi di carte), os quais além de serem jogados pela diversão, as pessoas também jogavam para ganhar dinheiro com as apostas e para galantear, pois era permitido que mulheres jogassem com homens. 


Gravura retratando jogo de cartas baseado na cena da comédia Le Donne Gelose de Carlo Goldoni, 1791.
Esses jogos foram bastante populares pelo século XVIII, onde normalmente os homens usavam a bauta e as mulheres usavam a moretta. Mulheres adolescentes eram proibidas de participar. Pelo fato de usarem máscaras, os homens e mulheres trocavam olhares sedutores, ou faziam gestos. As vezes ambos que seduziam eram casados. Por outro lado, houve épocas nas quais os homens foram proibidos de usarem máscaras nas casas de jogos, a fim de que seus credores conseguissem identificá-los e descobrissem que estavam mentindo para eles, ao atrasar o pagamento das dívidas. (SHAFTO, 2009, p. 33).

k) Os locais do carnaval:


Os espaços onde o carnaval era celebrado, eram tanto públicos quanto privados. Os ricos costumavam realizar bailes de carnaval ou de máscaras em seus palacetes, reunindo seus convidados nos salões de festas, jardins ou terraços. Por outro lado, as pessoas também frequentavam teatros, casas de ópera, tavernas, prostíbulos e casas de jogos. No entanto, grande parte da multidão de foliões se concentravam pelas ruas. 


Foliões numa taverna. Gravura do século XVII.
A cidade de Veneza ocupa um pequeno arquipélago, e muitas das suas ruas e e pontes são estreitas, e na época de carnaval, as vias ficavam abarrotadas de pessoas, e diferente de hoje em dia, os foliões não eram favoráveis a ruas superlotadas. 

Cena do jogo Assassin's Creed II, no carnaval veneziano do século XV.
Logo, a solução eram as praças ou campos, neste caso as principais praças da cidade ficavam ironicamente diante de igrejas. Daí ainda na Idade Média ter surgido proibições aos foliões em se entrarem nas igrejas e conventos. Por outro lado, sabe-se que havia relatos de clérigos que se fantasiavam e davam uma escapulida para participar dos festejos. 

Algumas das principais praças onde o carnaval era celebrado estavam as praças de San Polo, San Rocco, San Salvador, San Stefano, San Luca, Santa Maria Formosa, Santa Maria di Zobenigo e Santa Margherita. No entanto, o principal espaço do carnaval na cidade era e ainda é a praça de San Marco. 

A praça de São Marcos é considerada uma das mais belas praças da Europa e do mundo. Datada do o século IX, a praça é cercada pela Basílica de São Marcos, onde segundo a história, se encontram alguns dos restos mortais desse santo. Mas além da bela basílica em estilo bizantino e gótico, se encontra seu imponente campanário e o Palácio dos Doges, sede do governo veneziano.

O Carnaval de Veneza. Autor desconhecido, 1757.
Em si a praça por séculos representou o centro administrativo e cultural da cidade, pois ali reunia a principal igreja de Veneza, que desde o século XIX é a sede da diocese do estado veneziano; assim como, se encontra-se a sede política no Palácio dos Doges, além do fato de ser a maior praça da cidade. Além de se celebrar o carnaval, muitos dos mais importantes festejos da cidade, o que incluiu casamentos, posses de doges, bispos, homenagens a homens importantes, celebrações de vitórias militares, etc., foram realizados na praça. 

l) comidas típicas: 

Entre as comidas típicas de carnaval, duas se destacavam: a frittelle e a crostole. Ambas eram comidas doces e fritas. A frittelle era feita com farinha, leite, manteiga e ovos, após preparada a massa, recheava-se com pedaços de frutas como passas, limão ou maçã. Então fazia-se um bolinho e o levava ao óleo para ser frito. Terminado de ser frito, polvilhava-se o bolinho com açúcar. Por sua vez a crostole seguia uma receita parecida, a diferença é que usava-se vinho branco e suco de limão em seu preparo, e ao invés de recheá-la com frutas, a recheava com um licor doce, normalmente anisette (licor de anis), bastante apreciado na Idade Moderna. O crostole era feito de forma retangular, parecida com um pastel, então era frito e após pronto, polvilhava-se ele com açúcar. (SHAFTO, 2009, p. 35). 

Um prato atual com dois fritelle e dois crostole
NOTA: O triângulo amoroso entre a Colombina, o Arlequim e o Pierrot, é uma invenção posterior a commedia dell'arte, surgida com os franceses. No entanto, o Pierrot é baseado no personagem italiano dessa comédia, chamado Pedrolino, o qual se veste da mesma forma, mas possui algumas características diferentes.
NOTA 2: Durante o carnaval de 1751, a rinoceronte Clara, a qual ficou famosa no século XVIII, pois era exibida como um animal exótico em vários países da Europa, visitou naquele ano Veneza, sendo uma grande atração na ocasião. Pinturas e artigos foram feitos para se falar sobre tal visita.  
NOTA 3: Outro carnaval bastante antigo, é o Carnaval de Nice na França, celebrado desde o final do século XIII. 
NOTA 4: Carros alegóricos não foram comuns no carnaval veneziano devido as ruas apertadas da cidade, no entanto, se encontram relatos e pinturas de carros alegóricos no carnaval de Nice, já pelo século XVIII.
NOTA 5: No romance gótico O Corcunda de Notre-Dame (1831), escrito por Victor Hugo, a primeira parte do livro ocorre num festejo carnavalesco celebrado em fins de janeiro do ano de 1485, já na Idade Moderna. Todavia, a Paris daquela época, ainda conservava muitos dos traços e hábitos do final da Idade Média. Na ocasião, um dos espetáculos mais aguardados daquele carnaval era a eleição do "papa dos bufões", que naquele ano foi vencido pelo personagem do Quasímodo, o corcunda. 

Referências Bibliográficas:
BAKHTIN, M. M. A cultura popular na Idade Media e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. 4.ed. São Paulo, HUCITEC, 1999. 
BORGES, Paulo Alexandre Esteves. Da loucura da cruz à festa dos loucos. loucura, sabedoria e santidade no cristianismo. Cadernos Vianenses, tomo XXIX, jan. 2001. 
FALBEL, Nachman. Heresias medievais. São Paulo, Editora Perspectiva, 1976.
FOUCALT, Michel. História da loucura na idade clássica. São Paulo, Editora Perspectiva S.A, 1978.
GULEVICH, Tanya. Encyclopedia of Easter, Carnival e Lent. Detroit, Omnigraphics, 2002. 
LE GOFF, Jacques (dir.). O homem medieval. Lisboa, Editorial Presença, 1989.   
SHAFTO, Daniel. Carnival. New York, Chelsea House Publishers, 2009. 

Referências da Internet:

http://www.carnivalofvenice.com/?lang=en 
http://www.comune.venezia.it/flex/cm/pages/ServeBLOB.php/L/EN/IDPagina/2385
http://www.delpiano.com/carnival/html/history.html 

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