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sábado, 26 de novembro de 2016

Nota sobre o falecimento de Fidel Castro

2016 esta sendo um ano cheio de surpresas e reviravoltas, boas ou ruins. A morte de Fidel Alejandro Castro Ruiz, na noite de sexta-feira, 25 de novembro, aos 90 anos, tomou a todos de surpresa, quando neste sábado foi oficialmente divulgado pelo seu irmão Raul Castro a confirmação do falecimento de Fidel. 


Agora com a partida do nonagenário militante e revolucionário o qual governou uma pequena ilha no Caribe ao longo de décadas, tornou-se o tema do dia e provavelmente das semanas seguintes. Como avaliar a partida desse controverso homem, o qual ao lado de Che Guevara (1928-1967), tornou-se um dos mais icônicos revolucionários latino-americanos? 

Realmente é difícil pensar nisso sem tomar partido, pois o que se observa nos sites de relacionamento e na imprensa, uma guerra de opiniões, onde de um lado se encontram aqueles que condenam Fidel como um terrível ditador; do outro lado, temos aqueles que ovacionam suas ações, aclamando-o como herói dos oprimidos. 

Não será agora que farei uma análise dessa importante figura política das últimas décadas. Necessitarei de estudar sua extensa carreira política, assim como, adentrar ao mito político que foi ao longo dos anos construído sobre sua pessoa, e se diga de passagem: não apenas um mito, mas mitos, pois temos o Fidel revolucionário, o Fidel presidente, o Fidel ditador, o Fidel opressor, o Fidel solidário, o Fidel combatente do imperialismo etc. 

Todos esses mitos políticos se fazem necessários serem estudados e criticados, para que assim possa se chegar a um denominador comum acerca do que ele realmente fez, de forma a se separar as calúnias, invenções e bajulações atribuídas ao seu governo e pessoa. 

Sabemos que de fato Fidel Castro foi um ativo militante marxista, socialista, nacionalista, anticapitalista, antimperialista e talvez "antiamericanista". Sua postura radical em defender a implantação de um regime socialista em seu país, tornou Cuba por décadas uma nação reclusa, reclusão não apenas acarretada pelo embargo econômico (dissolvido em 2014) imposto pelo governo dos Estados Unidos da América, como retaliação a Revolução Cubana (1959), na qual o então presidente/ditador Fulgêncio Batista foi deposto do poder; sendo que Batista possuía negócios e acordos escusos com a Casa Branca, o que levou os irmãos Castro, Guevara e outros guerrilheiros a tentar tomar o poder do país e romper com essa submissão aos americanos. 

Mas para além dessa defesa ao nacionalismo, ao marxismo, ao socialismo, Castro foi um militante que incentivou as nações latino-americanas e até de outros continentes a lutarem contra as ditaduras capitalistas e militares, algo um tanto contraditório, já que ele mesmo instalou segundo alguns, uma ditadura socialista, pois de 1959 a 2008, Fidel Castro esteve a frente do governo cubano, fosse como Primeiro-Ministro (1959-1976), como Presidente (1976-2008) e como Secretário-Geral do Partido Comunista de Cuba (1959-2011).

Fidel Castro foi um homem contraditório. Proibiu o direito de ir e vir dos cubanos, o que contribuiu para o isolamento parcial de seu povo; reprimiu a oposição ao seu governo, censurou a imprensa; teria ordenado execuções e prisões políticas etc. Cortou relações com vários países e até com o Vaticano. Neste caso, Castro decretou a laicidade do Estado cubano e inclusive aboliu os feriados religiosos de origem católica. Manteve por décadas uma postura contundente e agressiva contra o governo americano, seu principal rival. Apoiou a política da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), embora nem sempre fosse favorável a algumas de suas posturas. Vivenciou a Crise dos mísseis de Cuba (1962), acontecimento que quase levou a Terceira Guerra Mundial.

Por outro lado, tornou-se solidário ao governo brasileiro em apoiar a luta contra a Ditadura Militar (1964-1985), e chegou a conhecer alguns dos presidentes brasileiros como Juscelino Kubitschek (1956-1961), Fernando Collor de Mello (1990-1992), Luís Inácio Lula da Silva (2003-2011) e mais recentemente Dilma Rousseff (2012-2016). Apoiou Hugo Chávez (1954-2013) em sua revolução socialista na Venezuela; apoiou Nelson Mandela (1918-2013) na sua luta contra o Apartheiddiscursou várias vezes na ONU (Organização das Nações Unidas), criticando a falta de apoio aos países em guerra, aos países onde as taxas de mortalidade infantil eram absurdas, aos países onde a população vivenciava grande miséria, passando fome; defendeu o investimento na educação e na saúde, inclusive incentivou médicos cubanos a auxiliarem em outros países. 

Diante de tal breve comentário, deixo minhas últimas palavras. É preciso pensar Fidel Castro para além do ditador e revolucionário, como foi mencionado, é preciso entender sua atuação política dentro do contexto da Guerra Fria (1945-1991) e após essa ter terminado; sua influência sobre outros países e líderes, e as ações de seu governo para retirar Cuba do atraso social, passando a investir na Educação e na Saúde, tornando Cuba no século XXI, o país com o maior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da América Latina. As ações de Fidel Castro fazem parte daquela reflexão na qual diz: os fins justificam os meios? Os meios que ele usou, realmente justificam os fins que ele pretendia?


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O ofício do historiador

Não é de hoje que historiadores e outros estudiosos fizeram a pergunta de qual seria a função do historiador? Em geral, o senso comum atribui aos historiadores e historiadoras dois ofícios principais: a docência e a escrita da História (pesquisa). De fato isso não está errado. Mas embora em muitos países tais características sejam predominantes, o ofício do historiador hoje em dia não se limita apenas a isso. 

Em 1949 foi publicado postumamente o livro do historiador francês Marc Bloch (1886-1944), intitulado Apologia da História ou o ofício do historiador (Apologie de I'historie ou Métier d'historien). Obra incompleta, pois Bloch acabou morrendo em 1944. Assassinado por um pelotão de fuzilamento nazista. Na época, Bloch que era judeu e um patriota francês, o qual havia servido na Primeira Guerra (1914-1918), mas decidiu se alistar na Segunda Guerra (1939-1945), morreu sem poder completar esse seu último livro. De qualquer forma a Apologia da História tornou-se um marco para os historiadores das décadas seguintes para que começassem a repensar o sentido da História, do estudo histórico e do ofício do historiador. 

Todavia, este texto que escrevo agora, representa um olhar pessoal de como o historiador trabalha no século XXI. Como dito Marc Bloch não foi nem o primeiro e nem o último a se indagar acerca do nosso ofício. Historiadores do século XIX e até antes já questionavam a respeito. Porém, como os tempos mudam, se faz necessário também a atualização de algumas profissões. O historiador do século XXI graças ao advento tecnológico, a globalização em massa, a industrialização, as intensas mudanças culturais, guerras mundiais, revoluções, revoltas, movimentos sociais, ideologias, crises econômicas etc., teve que mudar sua percepção sobre seu ofício, tanto no que diz respeito ao seu trabalho como professor, pesquisador, acadêmico, e sua função para a sociedade. 

Sendo assim, neste texto apresentarei antigas e novas funções do historiador, nestes tempos modernos. 

Introdução:

A profissão do historiador se confunde com a do contador de histórias, do escritor, do relator, do cronista etc., de qualquer um que por algum motivo decidiu escrever sobre a História. Sendo assim, antes do advento da escrita por volta de 4000 a.C, contadores de histórias já existiam. Geralmente eram pessoas mais velhas da comunidade, cuja função era transmitir aos adultos, jovens e crianças, as tradições, mitos e costumes de seu povo. Eventualmente em meio a essas narrativas, falava-se de acontecimentos históricos relacionados ao local ou região que eles viviam: uma seca, uma grande tempestade, uma peste, uma invasão, uma guerra, a morte de algum chefe importante, o ataque de algum povo vizinho etc. 

Nesse primeiro momento, os homens ainda não possuíam claramente uma noção do que seria a História, aqui no sentido de uma grande união de acontecimentos ao longo do tempo e espaço. Com o advento da escrita entre os povos mesopotâmicos, egípcios, indianos, chineses etc., começaram a surgir os primeiros registros históricos escritos. 

A necessidade de reis e de seus Estados de controlar a política, a economia, o comércio, de essencialmente administrar o Estado, levou ao surgimento de relatórios, por sua vez os funcionários que redigiam tais relatórios passaram a ter a preocupação em relatar outros acontecimentos acerca de sua cidade, reino, nação, com isso surgiram os primeiros relatos históricos. Normalmente associados a vida e reinado de algum governante, ou acontecimentos bélicos, políticos e naturais marcantes. 

A medida que a escrita foi se aperfeiçoando e as sociedades se desenvolvendo e passando a interagir entre si, começaram a surgir relatos sobre pessoas, seus feitos e vidas, mesmo que fossem relatos associados muitas vezes com o campo do mitológico e do lendário. Mas é preciso pensar que no passado, até pelo menos uns 500 anos trás, mito e lenda não estavam desassociados da história. 

Na Suméria, por exemplo, o rei Gilgamesh tornou-se um personagem semilendário, tornando-se herói em alguns poemas. Existem controvérsias se Gilgamesh teria sido um rei sumério real, mas alguns historiadores como Gwendolyn Leick (2003, p. 70) e Pierre Lévêque (1987, p. 30) defendem que Gilgamesh possa ter sido um rei que teria vivido no Período Dinástico II (c. 2700-2550 a.C) da história mesopotâmica. Séculos depois ele teria se tornado um herói semideus. O próprio rei Sargão, o Grande (c. 2334-2279 a.C), fundador de um império mesopotâmico, possui parte da sua vida registrada em relatos históricos, mas com teor lendário também. De qualquer forma, estes dois exemplos mesopotâmicos mencionados, datam de mais de quatro mil anos atrás, o que revela a antiguidade do registro histórico, ou da chamada "história narrativa". 

Sendo assim, por milhares de anos a História foi narrada oralmente ou pela escrita, embora que essencialmente a História fosse uma narrativa em si, pois não havia a noção de pesquisa, algo que hoje é tão marcante nessa ciência humana. A realidade começou a mudar um pouco (pelo menos no Ocidente), com os gregos. No século VI, o filósofo Hecateu de Mileto (c. 540 - c. 480 a.C), escreveu alguns livros de teor geográfico e histórico como A Descrição da Terra e Genealogias. Hecateu apresenta-se de posse de um espírito indagador e investigador, reflexo da sua condição como filósofo. Ele começou a criticar a história grega, tentando delinear o que seria mito e o que seria realidade. (QUEIROZ; IOKOS, 1999, p. 15).  

Mas o destaque foi para Heródoto de Halicarnasso (c. 484-425 a.C) o qual viria a se tornar o "Pai da História"Heródoto decidiu investigar acerca do costumes de outros povos como os egípcios, persas, citas e líbios, mas também a investigar o passado, mais respectivamente um grande acontecimento que ocorrera ainda na sua infância, as Guerras Médicas (499-498 a.C/480-479 a.C), grande conflito travado entre as cidades-Estados gregas e o Império Persa, na época governado por Dario I, o Grande e depois por seu filho Xerxes I

Heródoto havia crescido ouvindo as histórias dessas batalhas, então decidiu investigar a respeito. Decidiu procurar saber por quais motivos tais guerras se inciaram? Quem foram os líderes, os generais, os reis? Onde tais conflitos ocorreram? Quando aconteram? O resultado dessas batalhas (embora ele soubesse que os gregos haviam vencido), mas como eles venceram? Por que os persas os quais diziam ter um gigantesco exército, o maior do mundo, foram derrotados? Essas e outras perguntas levaram Heródoto a empreender viagens por alguns países, para coletar informações, fontes e referências para seu volumoso trabalho, que resultou em nove livros, cada um nomeado com o nome de uma das Musas, e hoje mais conhecidos como Histórias


“Heródoto trabalhou com um material diverso e enorme. Com fontes orais ao interrogar pessoas com quem se encontrava, com a experiência visual obtida nas viagens ao observar, classificar e medir costumes, edifícios, santuários, esculturas, monumentos, rios, mares, caminhos – ver com os próprios olhos era então considerado mais importante do que o ouvir com os próprios ouvidos – e também com textos e inscrições. Registra depoimentos conflitantes, indica o que prefere e deixa ao leitor sua escolha final. Documenta as crenças populares, a maneira como o povo egípcio, por exemplo, via seu próprio passado. Embora desconfie de muitas de suas informações, não hesita em transcrevê-las”. (QUEIROZ; IOKOI, 1999, p. 17). 

De qualquer forma, entre os méritos de Heródoto estão a preocupação de conhecer os povos vizinhos, mesmo que sob um olhar as vezes preconceituoso; procurar investigar a origem, desenvolvimento e fim dos acontecimentos. Não era apenas narrar o que ocorreu, mas questionar como isso aconteceu. Podemos dizer que Heródoto tenha sido um dos primeiros a esboçar uma "crítica histórica", embora limitada ao pensamento da época. 

Além disso é de autoria de Heródoto, a origem da palavra história. 

"A palavra história foi uma criação de Heródoto, ou seja, originalmente a palavra história fora um neologismo, derivado da palavra histor (ιστορ) que significava "investigar", "procurar". Heródoto criou a palavra historia (no plural se diz historiai), que na época possuía um sentido de conhecer, pesquisar, procurar saber. Hoje seu sentido é bem mais complexo. Todavia, a invenção de Heródoto é tão marcante que o seu livro fora batizado com a palavra que ele criara: As Histórias (Ἰστορἴαι), embora não foi ele que dera este nome ao seu livro". (VILAR, 2013). 

Inclusive um de seus contemporâneos, chamado Tucídides (c. 460-400 a.C), autor de a História da Guerra do Peloponeso, outra importante obra histórica da Grécia Antiga, também voltada para o estudo de uma guerra, mas desta vez de um importante conflito que durou mais de três décadas entre Atenas e Esparta a chamada Guerra do Peloponeso (431-404 a.C). Tucídides assim como Heródoto, decidiu registrar os acontecimentos dessa guerra por alguns anos, procurando compreender como ela se iniciou e seu desenvolveu, pois não viveu para ver o seu fim. Diferente de Heródoto que havia seguido uma abordagem de "história cultural" e história da guerra, Tucídides presou por uma história política e uma história da guerra, inclusive recorrendo aos discursos políticos e militares proferidos na época, como fonte. 

Após Heródoto e Tucídides outros trabalhos no campo da história, estes em parte influenciados por eles, foram desenvolvidos na Grécia e depois em Roma. No entanto, paralelo a isso, temos obras históricas sendo redigidas na Pérsia, Índia e China. Por exemplo, o diplomata persa Megástenes (c. 350 - c. 290 a.C), foi enviado pelo imperador Seleuco I Nicator à Índia. Sua viagem resultou na obra em quatro volumes, intitulada Indica. (USARKI, 2013, p. 139-140). Na China, destaca-se o trabalho de Sima Qian, o qual entre 109 e 91 a.C, escreveu o livro Shiji (Registro de Historiador). O livro de Sima Qian é um misto de trabalho de história e biografia, pois ele escreveu sobre a vida do mítico Imperador Amarelo, de reis, nobres e burocratas, como narrou dados econômicos, culturais, sociais, militares, políticos etc. 

Percebe-se que por volta dos séculos VI ao IV a.C, a História começa a ser pensada de outra forma, entre os gregos, romanos, persas e chineses, os quais em alguns casos se preocuparam em não apenas relatar a história de seus povos e países, mas de outros povos e culturas. 

1) O historiador como narrador: 

Até o século XIX, a escrita da história essencialmente era a narrativa. Isso significa que desde o advento dos primeiros alfabetos, isso a pelo menos uns seis mil anos atrás, a História foi sendo narrada desde então. Heródoto e Tucídides quando redigiram suas obras, na época, seus trabalhos eram considerados uma forma de literatura, uma "literatura do real", pois ainda não havia entre o pensamento grego uma concepção clara do que era história, como hoje concebemos. 

É evidente que os gregos tinham noção de literatura de ficção, algo que já faziam com alguns de seus poemas e peças teatrais, por outro lado, os relatos mitológicos eram vistos como acontecimentos reais, e essencialmente o mito é em muitas vezes uma narrativa. Narrar é contar uma história, independente dela ser real ou não, pois caberá a aquele que a ouve, decidir se vai crer ou não na narrativa. E isso era algo que os gregos já tinham ciência no tempo de Heródoto, pois alguns contestaram a veracidade do relato dele. (HARTOG, 1999, p. 304-305). 

De qualquer forma, para além da história ser contestada como sendo algo real ou ficcional, essencialmente ela é uma narrativa. No século XIX, alguns historiadores alemãs como Leopold von Ranke (1795-1886), influenciado pelo Positivismo de Auguste Comte (1798-1857), especialmente acerca das ideias de se criar uma ciência social objetiva, imparcial, realista e científica (o que deixaria de lado ideais teológicos e metafísicos), Ranke concebeu uma metodologia e teoria de estudo histórico no intuito de conceder um caráter "científico" ao estudo da História, no que resultou na chamada Escola Metódica


"A escola metódica é “criada em torno de um axioma, o da história como ‘ciência positiva’” (DOSSE, 2003, p. 39-40), fugindo do subjetivismo em nome da ciência e do respeito à verdade. Estes historiadores metódicos afirmavam, através de suas revistas não serem defensores de nenhum credo dogmático e que apenas buscavam o máximo possível de exatidão para com as fontes". (FARIAS; FONSECA; ROIZ, 2006, p. 121).

Por mais que houvesse o objetivo dos metódicos de conceber uma metodologia histórica a fim de tornar o estudo da História algo com um caráter científico, ideia viabilizada por Comte para as Ciências Sociais, ainda assim, os próprios historiadores adeptos da Escola Metódica se valiam da narrativa para escrever a História. Em pleno século XIX, o ofício do historiador ainda era o de ser o narrador, mas não um narrador no sentido literário, mas um narrador que realizava uma pesquisa acadêmica e científica para relatar com base nas fontes, o que ocorreu. Essencialmente para os metódicos a História estava contida nas fontes escritas, bastava os historiadores as lerem e narrar os acontecimentos, embora na prática não seja bem isso, algo que veremos adiante.

Ainda assim, por mais que os positivistas e metódicos do XIX, ainda mantivessem o papel central da narrativa como forma de escrever a História, eles inauguraram dois aspectos bastantes pertinentes: o historiador como professor e como pesquisador. Assuntos que serão abordados mais a frente. 

2) O historiador como biógrafo:

Antes de o historiador tornar-se professor e pesquisador, algo que se torna mais claro no XIX, na Europa, alguns historiadores também atuavam desde tempos antigos como biógrafos. Embora que hoje em dia a relação da biografia com a história dependendo do local, não consista numa boa relação. O historiador francês François Dosse em seu livro O desafio biográfico (2005), analisou de forma bem extensa o desenvolvimento do gênero biográfico, comentando acerca das ruas raízes, mas o debatendo principalmente nos séculos XIX e XX. Com base nesse seu estudo, comentarei a seguir a relação do historiador com a biografia. 

Na essência uma biografia é o relato da vida e feitos de alguma pessoa, a qual foi considerada importante para que sua história fosse contada. Alguns podem pensar que todo historiador e historiadora sejam biógrafos pelo fato de falar da vida de alguns personagens históricos, mas a questão não é tão simples assim. 

Há diferença na forma como um personagem histórico é abordado num livro de história, da forma que ele é abordado numa biografia. Ler um livro sobre o governo de Napoleão Bonaparte não é o mesmo que ler uma biografia sobre ele. Por mais que no livro de história haja algumas referências a vida do imperador francês e até mesmo informações sobre sua vida privada, ainda assim, são questões pontuais, porém por sua vez a biografia nos fornece uma visão de Napoleão Bonaparte bem mais ampla. 

“A arte do biógrafo é concebida, por Schwob, como a capacidade de diferençar, individualizar até mesmo personagens que a história reuniu. Ele deve captar o detalhe ínfimo, minúsculo que tenta reproduzir da melhor maneira a singularidade de um corpo, de uma presença”. (DOSSE, 2005, p. 57).

Mas antes de haver toda a rixa entre biógrafos e historiadores, desde a Antiguidade biografias eram escritas, geralmente pelos mesmos homens que escreviam os relatos históricos. Assim, não era incomum encontrar relatos de governos e seus governantes, inseridos em anais históricos. Dessa forma, encontram-se relatos históricos-biográficos de faraós egípcios, reis persas, reis babilônios, reis indianos, reis chineses etc. O sacerdote Mâneton que viveu no Egito por volta do século III a.C, redigiu uma importante obra sobre a história egípcia chamada em grego de Aegyptiaca, na qual se destaca a cronologia do reinado dos faraós, além de alguns comentários sobre eles. Nota-se um trabalho histórico-biográfico aqui. 

Todavia, foram os gregos que criaram a noção de biografia como hoje conhecemos. 

Os gregos adotaram o gênero biográfico a partir dos persas, especialmente de Cílax e Xanto, os dois biógrafos gregos mais antigos que se conhecem, os quais viviam nas colônias gregas na Ásia Menor (atual Turquia), na época, na fronteira com o Império Persa. Por sua vez, a partir do século V a.C, essa escrita começou aos poucos a se difundir entre as cidades-Estados gregas. No século IV a.C já haviam surgido dois grandes biógrafos gregos Isócrates e Xenofonte. Nesse momento os gregos adotavam dois tipos de biografias: a bios (biografia política) e a enconimium (biografia da vida privada). (DOSSE, 2009, p. 124-125). 

A partir dos gregos o gênero biográfico se popularizaria na Europa, passando pelos romanos e sendo distribuído pelo continente. Foi com Plutarco (46-120 d.C), autor de várias biografias sobre imperadores romanos e outros monarcas, algo que ficou conhecido como Vidas Paralelas, que o gênero biográfico se popularizou na Roma Antiga, assim como, tornou-se um modelo europeu ao longo de séculos. Na Renascença (XIV-XVII) os biógrafos modernos, ainda usavam Plutarco como inspiração. 

Plutarco não foi um historiador como alguns alegam, já que o interesse dele pela História era mais pautado na vida privada (principalmente nas polêmicas) envolvendo governantes greco-romanos. 

“O que importa para Plutarco é o confronto entre os imperativos de um mundo exterior e trágico e a maneira como o herói reage. Daí o biógrafo Plutarco exceder-se na descrição da intriga, no desenvolvimento dramático. Em contrapartida, atribuí importância apenas secundária à cronologia, que permanece imprecisa. Disso resulta um modo de causalidade muito diferente do factual, que caracteriza quase sempre o discurso histórico”. (DOSSE, 2005, p. 131). 

O que é preciso aprender aqui é que necessariamente o historiador não é um biógrafo como alguns acham. Os gregos antigos não apenas deram a forma a biografia como hoje a conhecemos, como também de certa forma inauguraram a profissão de biógrafo (a pessoa que escreve biografias). Sendo assim, ao longo da História, muitas biografias não foram escritas por historiadores, mas por biógrafos, filósofos, escritores, eruditos, políticos, clérigos etc. Ainda hoje é assim. Atualmente a maioria das biografias são escritas por biógrafos, jornalistas ou indivíduos com distintas formações, mas que são fãs de alguma personalidade e decidiram escrever sobre tal pessoa. 

Mas isso não significa que historiadores não possam escrever biografias, eles podem fazer isso, mas dependerá de sua escolha. Dosse (2005) em seu obra menciona biografias escritas por historiadores que acabaram sendo péssimas ou horríveis, e tal motivo se deveu que tais historiadores embora tenham realizado um belíssimo trabalho investigativo, no entanto a escrita era enfadonha e pouco atraente. Em compensação ele menciona biografias que foram excelentes como a biografia de Winston Churchill (2000) pelo historiador François Kersaudy, ou a famosa biografia do rei inglês Guilherme, o Conquistador (1964) escrita pelo historiador Paul Zumthor; ou a biografia do rei francês Filipe, o Belo (1978) do historiador Jean Favier

3) O historiador como memorialista:

Outra função do historiador é ser memorialista. Neste caso, o historiador tende a escrever e também preservar a memória. Heródoto em seus livros dizia que um dos seus objetivos era evitar que as histórias de grandes homens fossem esquecidas e que as façanhas dos gregos e bárbaros ficassem ignoradas. Essencialmente ele dizia que ao escrever aquelas histórias ele estava preservando o legado de seu povo, assim como, seu passado e sua identidade. No entanto, o que seria memória?

O historiador francês Jacques Le Goff (1990, p. 423) dizia que a memória poderia ser entendida por um aspecto biológico, psicológico, neurológico e psiquiátrico, mas também podemos falar de memória como gênero literário, como lembrança, como recordação; ou memória artificial, termo sugerido pelo antropólogo André Leroi-Gourhan, o qual se referia ao uso da tecnologia para se preservar a memória (escrita, fotografia, vídeo, memória eletrônica etc). Nota-se aqui diversas acepções para se conceituar a palavra memória, todavia, Jacques Le Goff queria destacar o que ele se referia a uma "memória histórica" ou "memória social"

Memória nesse sentido consiste na lembrança, recordação, registro, passado, vivência, experiência, identidade, identificação, tradição, legado, história. (LE GOFF, 1990, p. 427-431). Jacques Le Goff assinalava que a memória histórica seria formada por um conjunto de memórias coletivas (recordações de um grupo, comunidade, povo, população) e memórias individuais (recordações de cada um), as quais reunidas representariam em parte, a percepção de um passado comum, que neste caso seria sua história. Essa percepção da memória como estando relacionada a História é algo bem antigo. 


“No Oriente antigo, por exemplo, as inscrições comemorativas deram lugar à multiplicação de monumentos como as estetas e os obeliscos. Na Mesopotâmia predominaram as estelas onde os reis quiseram imortalizar os seus feitos através de representações figuradas, acompanhadas de uma inscrição, desde o III milênio, como o atesta a estela dos Abutres (Paris, Museu do Louvre) onde o rei Eannatum de Lagash (cerca de 2470) fez conservar através de imagens e de inscrições a lembrança de uma vitória. Foram sobretudo os reis acádios que recorreram a esta forma comemorativa. A mais célebre das suas estelas é a de Narãm-Sin, em Susa, onde o rei quis que fosse perpetuada a imagem de um triunfo obtido sobre os povos do Zagros (Paris, Museu do Louvre). Na época assíria, a estela tomou a forma de obelisco, tais como o de Assurbelkala (final do H milênio) em Nínive (Londres, British Museum) e o obelisco negro de Salmanassar III, proveniente de Nimrird, que imortaliza uma vitória do rei no país de Nousri (cerca de 892; Londres, British Museum)”. (LE GOFF, 1990, p. 431-432).

Com o advento de novos suportes para a escrita, principalmente do papiro, pergaminho e do papel, com isso as pessoas passaram a dispor de meios móveis para o registro histórico, pensando que até então, a escrita memorialista em grande parte estava restrita aos monumentos e as paredes. Essa escrita móvel permitia que ela se deslocasse, fosse mais fácil de ser reproduzida, assim como também de ser armazenada, organizada e protegida. 

“Neste tipo de documento a escrita tem duas funções principais: "Uma é o armazenamento de informações, que permite comunicar através do tempo e do espaço, e fornece ao homem um processo de marcação, memorização e registro"; a outra, "ao assegurar a passagem da esfera auditiva à visual", permite "reexaminar, reordenar, retificar frases e até palavras isoladas"”. (LE GOFF, 1990, p. 433 apud GOODY, 1977, p. 78).

Dessa forma, os historiadores e não-historiadores os quais passaram a escrever registros históricos, em parte também atuavam como memorialistas, por estarem preservando fossem suas memórias individuais, caso fossem testemunhas dos acontecimentos que relatavam, algo visto em crônicas, memórias e diários, ou poderiam relatar memórias coletivas como em anais, crônicas, relações etc.  

Entretanto se faz sublinhar que memória e história não são a mesma coisa. A memória é a recordação vivida de uma pessoa ou grupo de pessoas, a história é uma construção cronológica de acontecimentos e fatos com base no relato individual e coletivo de pessoas. A memória diz respeito a algo pessoal e familiar do indivíduo, a história não. (NORA, 1993, p. 9). 

“O passado só se torna história quando expressamente interpretado como tal; abstraindo-se dessa interpretação ele não passa de material bruto, um fragmento de fatos mortos, que só nasce como história mediante o trabalho interpretativo dos que se debruçam, reflexivamente, sobre ele”. (RÜSEN, 2001, p. 77).

Nesse sentido Michael Pollak (1992, p. 201-203) ao entrevistar habitantes dos estados franceses da Normandia, Alsácia e Lorena, regiões bastante abaladas durante as duas Grandes Guerras, ele notou essas diferenças entre a memória e a história. 

Michael Pollack (1989/1992) como sociólogo e historiador decidiu através de entrevistas coletar as memórias individuais e coletivas dos habitantes desses estados, a fim de compreender a visão, recordação, impressão e opinião daquelas pessoas que testemunharam as batalhas e o horror da guerra. Aqui temos a possibilidade de compreender o impacto da guerra em âmbito local e regional, assim como, também fugindo da tradicional história da guerra, a qual se importava basicamente em descrever os conflitos. Pollak buscou não entender o conflito, mas entender o impacto causado sobre aqueles que se viram em meio a essas batalhas.

Assim o importante a ser dito aqui é a condição de que o historiador pode ser um memorialista, não que ele seja um memorialista, pois no sentido mais amplo, memorialista é a pessoa que escreve memórias ou trabalha com a memória individual ou coletiva. Neste caso, a memória pode ser tornar uma fonte para se estudar a História, cabendo o historiador situa-la, contextualizá-la, averiguá-la, identificar seu posicionamento, discurso, significância e relevância. (RICOUER, 2000, p. 162-164). 

4) O historiador como pesquisador:

Pode até parecer algo óbvio falar que o historiador é um pesquisador, já que para ele escrever a História, necessita se fazer uma pesquisa. Sim, isso é verdade, mas nem sempre isso foi uma obviedade. Não obstante, hoje em alguns países, há historiadores e historiadoras que somente fazem pesquisa, e não lecionam. Consistem no historiador-pesquisador ou historiador-investigador. 

A ideia de que o historiador seja um pesquisador nem sempre existiu. Isso é uma noção que começou a vigorar no século XIX, antes encontramos casos pontuais, de livros de história que surgiram a partir de pesquisa, e não apenas no intuito de narrar acontecimentos. 

Um caso já mencionado diz respeito aos nove livros escritos por Heródoto, pois ele próprio pesquisou acerca das Guerras Médicas, inclusive cunhou a palavra história (pesquisa, investigação), nesse sentido. Em outros momentos da História, tivemos obras eventualmente oriundas de pesquisa, como no caso do livro História do Declínio e Queda do Império Romano (1776-1788), escrito pelo historiador inglês Edward Gibbon (1737-1794), a qual consistiu num volumoso trabalho em seis volumes, nos quais Gibbon procurou contar os motivos pelos quais o Império Romano chegou ao fim. A obra de Gibbon é significante para a historiografia, pois foi uma das primeiras a abordar por um viés crítico o declínio e a queda de Roma. Até então havia livros que simplesmente narravam os acontecimentos. 

Todavia, apenas no século XIX com o surgimento do Positivismo e da Escola Metódica foi que o estudo da História passou a ser concebido não mais como mera narração de acontecimentos, mas como uma pesquisa científica. Por mais que a metodologia da Escola Metódica tenha seus problemas e hoje não seja mais adotada, ainda assim, foi com aqueles historiadores que a noção de que escrever a História deva ser resultado de uma pesquisa minuciosa, séria e crítica, surgiu. 

"O primeiro objetivo, deste movimento, era o de delinear maneiras claras na abordagem documental (métodos), para os historiadores profissionais. O historiador deveria estar ciente de que pertencia a uma comunidade de profissionais que zela pela objetividade, e que seu papel era apresentar seus escritos sem qualquer traço da estética literária; um discurso frio, duro e sem qualquer resquício das “paixões” pessoais do historiador; ele deveria somente descrever o que está objetivamente contido na fonte, deixando o que há de subjetivo nela. O historiador deveria rechaçar qualquer precipitação imaginativa: “o ponto de partida do ofício de historiador envolvia pesquisar documentos, reuni-los, classificá-los e, com o amparo das chamadas ‘ciências auxiliares’ da história, proceder à crítica externa, especialmente sobre a origem das fontes; em seguida passar à crítica interna visando à determinação dos fatos para, finalmente, coroar com a construção narrativa, agrupando e ordenando os fatos numa seqüência de causalidades” (SILVA, 2001, p. 196)". (FARIAS;FONSECA; ROIZ, 2006, p. 121-122).

Leopold von Ranke, aqui já mencionado nesse estudo, foi um dos expoentes da Escola Metódica. Uma de suas primeiras grandes obras foi  História dos povos latinos e germânicos entre 1494 à 1514, lançada em 1824. Neste trabalho, ele realizou tudo aquilo que ele considerava que estava faltando nos outros historiadores de sua época. Ao invés de ficar empilhando um monte de fatos, e simplesmente os jogá-los naquelas páginas, como parte de uma longa e massante narrativa (as vezes bem descritiva), Ranke fez todo um trabalho de análise, interpretação, conferência de dados e por fim conclusão. 

Alguns pontos que se destacam nesse trabalho de Ranke: 
  1. a demarcação temporal a ser estudada, pois ao invés de procurar abarcar décadas ou séculos, Ranke escolheu um período de 20 anos, no qual ele decidiu analisar os acontecimentos cruciais daquela época. 
  2. Segundo, ele delimitou em parte seu recorte local, ao estipular estudar os povos latinos e germânicos (embora hoje em dia esse recorte seria complicado de ser aceito, pois estamos falando de vários povos). 
  3. Terceiro, Ranke como era um perfeccionista e um grande admirador da filologia, decidiu empregar os estudos de filologia para ler a documentação antiga. Dessa forma ele passou a ler obras não traduzidas e até mesmo traduzidas, onde apontou equívocos e erros de tradução. 
  4. Quarto, Ranke procurou avaliar suas fontes e os discursos a ela relacionadas, procurando não acreditar plenamente em determinados autores, principalmente de caráter duvidoso. 
  5. Quinto, ele também procurou estipular o que seria útil e importante numa pesquisa histórica, neste caso, em termos de fonte escrita. Qualquer documento poderia ser usado para se estudar a História? Ranke no caso opinou acerca do que poderia ser tomado como fonte histórica.
  6. Ele apresentou sua postura de que o historiador deveria se manter neutro. O historiador não deveria agir como juiz e querer julgar o passado. Para Ranke o papel do historiador era contar e explicar o que ocorreu detalhadamente, fosse algo agradável ou não, sem apresentar julgamentos de valores. 
"Foi ele quem criou para os estudos históricos o sistema dos seminários, que aos poucos iriam proliferar em outros países  Ao mesmo tempo desenvolveu recursos de pesquisa e crítica das fontes, adaptando para isso, à História, processos já em uso, antes dele, entre filólogos e exegetas da Bíblia. (HOLANDA, 1979, p. 16).

Na França dois importantes historiadores representantes da Escola Metódica foram Charles-Victor Langlois (1863-1929) e Charles Seignobos (1854-1942), os quais estavam entre os mais importantes e prestigiados historiadores da época, sendo professores na Universidade de Sorbonne. Langlois era especialista em história medieval, além de ter grande interesse por paleografia e bibliografia. Por sua vez, Seignobos era especializado em história política moderna. Ambos em 1898 publicaram um dos livros teóricos mais significativos da época na França: Introdução aos Estudos Históricos

"Este famoso livro é tido como principal manual dos cultores desta História, por expressar o “pensamento metódico ao explorar em detalhes os procedimentos para a coleta de fontes, operações analíticas, críticas interna e externa de documentos, defendendo a compreensão do particular e do circunscrito para se chegar a conhecer o específico da história” (JANOTTI, 2005, p. 12). Apesar, dessa tênue “flexibilidade”, o manual manteve ileso os aspectos essenciais, principalmente, no trato do subjetivismo, não o negando em momento algum". (FARIAS; FONSECA; ROIZ, 2006, p. 122).

No começo do XX, o estudo da História acompanhou as mudanças que ocorriam nas ciências da época. Naquele período entre 1800 e 1930, se formalizaram as ciências da Sociologia, Antropologia, Etnologia, Arqueologia, História, Geografia, Psicologia, Ciência da Religião, Fenomenologia etc. Nesse período de mudanças metodológicas e teóricas, a vanguarda na ideia de que o estudo da História tratava-se efetivamente de uma pesquisa, passou efetivamente para os franceses. Neste caso em 1929, com o lançamento do Anais de história econômica e social (Annales d'historie économique et sociale). O nome da revista acabou originando o que ficou conhecido como "Escola dos Annales"

"Durante quase toda primeira metade do século XX, a mentalidade metódica, baseada nas regras da erudição, atingiu de maneira tão ampla e profunda a historiografia que se manteve hegemônica. Entretanto, isto não impediu que a disciplina histórica tivesse sofrido mudanças significativas, especialmente no que concerne ao alargamento do campo de atuação dos historiadores, bem como da expansão das temáticas e das abordagens até então desprezadas ou desconhecidas no século XIX". (CORDEIRO JR, 2010, p. 74).

Com o advento dos Annales d'historie économique et sociale, ideia encabeçada pelos historiadores Marc Bloch e Lucien Febvre, o estudo da História receberia fôlego novo em termos metodológicos, teóricos, críticos, reflexivos etc. 

"O movimento dos Annales, em sua primeira geração, contou com dois líderes: Lucien Febvre, um especialista no século XVI, e o medievalista Marc Bloch. Embora fossem muito parecidos na maneira de abordar os problemas da história, diferiam bastante em seu comportamento. Febvre, oito anos mais velho, era expansivo, veemente e combativo, com uma tendência a zangar-se quando contrariado por seus colegas; Bloch, ao contrário, era sereno, irônico e lacônico, demonstrando um amor quase inglês por qualificações e juízos reticentes. Apesar, ou por causa dessas diferenças, trabalharam juntos durante vinte anos entre as duas guerras". (BURKE, 1992, p. 28).

"O grupo ampliou o território da história abrangendo áreas inesperadas do comportamento humano e a grupos sociais negligenciados pelos historiadores tradicionais. Essas extensões do território histórico estão vinculadas à descoberta de novas fontes e do desenvolvimento de novos métodos para explorá-los. Estão também associadas à colaboração com outras ciências ligadas ao estudo da humanidade, da geografia à linguística, da economia à psicologia. Essa colaboração interdisciplinar manteve-se por mais de sessenta anos, um fenômeno sem precedentes das ciências sociais". (BURKE, 1997, p. 126-127).

"Com os Annales a história se renovou reformulando suas regras, impondo o tríptico “economia-sociedade-civilização” em detrimento do binômio metódico “história factual-história política”. Esse tríptico manterá juntos sociólogos, geógrafos, psicólogos e historiadores dos Annales, em prol da rejeição comum do historicismo. Assim os Annales propõem o alargamento da história, orientando o interesse dos historiadores para outros horizontes: a natureza, a paisagem, a população e a demografia, as trocas, os costumes. Ampliam-se as fontes e os métodos, os quais devem incluir a estatística, a demografia, a linguística, a psicologia, a numismática e a arqueologia". (FARIAS; FONSECA; ROIZ, 2006, p. 124 apud DOSSE, 2003, p. 83).

Ao longo do século XX, tivemos o desenvolvimento da Escola dos Annales, até culminar com o movimento da "Nova História" nos anos de 1970. Na Itália tivemos o surgimento da Escola Italiana de História das Religiões na década de 1920, com o historiador Raffaele Pettazoni, e nos anos de 1980 o surgimento do gênero da Micro-história, desenvolvido por Carlo Ginzburg e Giovanni Levi. Na Inglaterra constituiu-se sob influência marxista de historiadores como Eric Hobsbawm, Edward Thompson e Christopher Hill a "história social inglesa". Na Alemanha sob influência neomarxista surgiu a Escola de Frankfurt. Nos Estados Unidos tivemos desenvolvimentos no campo da história política e econômica. 

Por mais que a História seja escrita por milhares de anos, seu estudo como uma disciplina e uma ciência ainda é algo novo, tendo se iniciado há um pouco mais de 150 anos. Nesse período o historiador se consolidou efetivamente como um pesquisador que ele realmente é, assim como, nunca antes havia se debatido tanto como estudar e escrever a História. O século XX tornou-se o marco para a consolidação da historiografia. 

5) O historiador como professor:

É preciso apresentar uma diferença importante aqui. Primeiro, o ensino de história é anterior a função do historiador como professor. Ao longo da História tivemos principalmente homens de distintas formações, que em dados momentos lecionaram história, assim como outras disciplinas. Alexandre, o Grande (356-323 a.C) teve como um dos seus professores o filósofo Aristóteles (384-322 a.C), o qual lhe deu aula de história. O imperador romano Nero (37-68) teve como um dos seus professores, o filósofo Sêneca (4 a.C - 65 d.C), o qual também lhe ensinou história.

Esses são apenas dois casos de muitos outros, nos quais monarcas foram instruídos acerca da História, não por historiadores, mas geralmente por filósofos, lembrando que os filósofos antigamente não estavam restritos apenas ao conhecimento filosófico. A filosofia até o século XVII era um campo de conhecimento bem extenso e abarcava várias áreas do conhecimento. Sendo assim, a ideia da História ser lecionada por historiadores é algo recente. E isso é válido tanto para o ensino privado, quanto para o ensino escolar e universitário. Mesmo nas escolas e universidades europeias, africanas e asiáticas. Vejamos o caso europeu, pois muito da concepção histórica e historiográfica que temos hoje, surgiu na Europa. 

Nas primeiras universidades europeias, entre os séculos XI e XIII, as disciplinas básicas eram chamadas de Sete Artes Liberais, as quais compreendiam o trivium (gramática, retórica e lógica) e o quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música). Além dessas disciplinas havia também medicina, direito, teologia e filosofia. É preciso pensar que no caso europeu as universidades eram frequentadas pelos clérigos e a nobreza. (BURKE, 2003, p. 27-28). 

Saberes como história, geografia, física, química, botânica, zoologia etc., não faziam parte do currículo universitário. A mudança no currículo somente ocorreu após o século XVI, com o surgimento do Humanismo, do Renascimento e da Revolução Científica. Com estes três movimentos de pensamento, o currículo universitário começou a mudar, embora não de forma fácil, pois houve forte resistência dos reitores e dos professores universitários em adotar os novos conhecimentos. Isso levou os pensadores da época a criarem academias e sociedades científicas para se estudar a chamada filosofia natural (física, química, alquimia, biologia, botânica, zoologia, mineralogia, farmacêutica etc). 

"A chamada "nova filosofia", "filosofia natural" ou "filosofia mecânica" do século XVII foi um processo ainda mais autoconsciente de inovação intelectual do que o Renascimento, pois envolvia a rejeição tanto da tradição clássica quanto da medieval, inclusive de uma visão de mundo baseada nas idéias de Aristóteles e Ptolomeu. As novas idéias estavam associadas a um movimento em geral conhecido (a despeito de dúvidas crescentes sobre a propriedade do rótulo) como Revolução Cientifica. Assim como os humanistas, mas em escala mais grandiosa, os adeptos do novo movimento tentaram incorporar conhecimentos alternativos aos saber estabelecido. A química, por exemplo, devia muito à tradição artesanal da metalurgia. A botânica se desenvolveu a partir do conhecimento dos jardineiros e curandeiros populares". (BURKE, 2003, p. 42-43).

Todavia, essas mudanças promovidas pelo Humanismo, o Renascimento e a Revolução Científica não causaram impacto no ensino regular de história. Nas universidades e nas escolas, história não era uma disciplina ofertada. A realidade começou a mudar no final do XVIII, mas principalmente no XIX. 


No caso da França, um dos primeiros países a mostrar interesse pelo estudo histórico e seu ensino, foi a partir de 1814 que o ensino de história passou a ser regular nas escolas, todavia, apenas em 1818 tornou-se obrigatório lecionar história nas escolas francesas, algo devido principalmente por interesses políticos. A ideia era incentivar o patriotismo e o nacionalismo ainda na infância. (PROST, 2008, p. 18). 

Por exemplo, o grande historiador francês Jules Michelet (1798-1874) iniciou suas atividades como professor de história em 1821, no Còllege Rollin. Neste caso, Michelet merece um duplo destaque: primeiro, por sua carreira como professor de história, segundo como pesquisador. Mesmo que a Escola Metódica e o Positivismo não tivessem ainda surgido na década de 1820, Michelet já havia iniciado sua carreira como pesquisador. Uma das obras que se destacou naquele período foi seu Compêndios de História Moderna (1827). Obra que passou a ser adotada por algumas escolas. (BOURDÉ; MARTIN, 1983, p. 82-83).

Não obstante, além da regulamentação do ensino de história nas escolas, Bourdé e Martin (1983, p. 75-76) apontam que entre os anos de 1830 e 1849, surgiram 23 sociedades históricas e arqueológicas apenas na França. Enquanto o estudo da história não era oficializado nas universidades, estudiosos, eruditos, nobres e curiosos criavam suas sociedades de estudo em diferentes países, cujo intuito era se estudar, pesquisar, trocar artefatos e ideias a respeito da História. 

A partir de 1830, ainda na França, foi criado o agrégation, o qual consistia num concurso público para se contratar professores para os liceus e as faculdades. A importância do agrégation rompia de certa forma com a dependência de ter que receber indicação e troca de favores para poder assumir cargos de professor, mas também estipulava que o professor deveria ter especialização na área que iria lecionar. Ou seja, para lecionar história começou a se requerer que o docente fosse historiador. Aqui começou a se delinear o historiador como professor, pois em outros locais do mundo, para ser professor de história não precisava ser historiador. (PROST, 2008, 19). 

O próprio Antonie Prost comenta que na França do XIX, não era incomum a História ser lecionada por professores de letras, de direito, de geografia, de filosofia e de teologia, algo também visto em vários outros países. Outra questão importante assinalada por Prost foi que com essa tendência de profissionalizar os professores, no caso do estudo histórico, a partir da década de 1840, os professores de história que passaram gradativamente a serem historiadores, estes começaram a escrever compêndios escolares, um fato muito importante para consolidar o ensino de história, e a própria função do historiador como professor, pois até então, para escrever um livro de história voltado para a escola, não era necessário ser historiador. (PROST, 2008, p. 20-21). 

Todavia, no caso universitário a situação demorou a mudar. Apenas na segunda metade do XIX é que várias universidades europeias passaram a criar cátedras de história. A Escola Metódica surgida na Alemanha, na segunda metade do XIX foi bastante contundente em defender não apenas o estudo científico da História, legitimar uma metodologia e teoria para se estudar e pesquisar a História, mas também em defender que o ensino de história fosse ministrado por historiadores. 

Sob influência da Escola Metódica os historiadores franceses começaram a reivindicar a criação de cátedras de história e departamentos de história. Para se ter noção de como o ensino de história profissional e regular é algo recente no mundo, uma das mais notáveis universidades francesas e europeias, a Universidade de Paris-Sorbonne em 1878, somente possuía duas disciplinas de história em seu currículo. Sendo que ambas eram ministradas no Departamento de Geografia. Apenas no século XX foi criado um Departamento de História na Sorbonne. (PROST, 2008, p. 34). 

Foi somente no século XX que o ensino de história regular e oficial nas escolas e universidades, sendo ministrado por historiadores, passou a vigorar no mundo. Antes disso temos casos pontuais em alguns países, mas na sua maioria o historiador ainda não era um professor de história, imagem hoje tão difundida e até mesmo estereotipada em alguns países, nos quais quando se diz que é historiador, a primeira coisa que se pensa é: você é professor de história. 

6) O historiador como patrimonialista:

O ofício do historiador como patrimonialista também é algo recente. Consiste numa noção surgida propriamente no XIX, mas que apenas começou a se evidenciar no século XX. O fato disso ser recente se deve a condição que a noção de patrimonialismo consiste num pensamento também recente. 

"As teorias iluministas, embasadas na razão e no método científico, desde o século XVIII vinha alterando as relações na arquitetura, suas teorias e aplicações. Mas é com o advento da revolução industrial que este fato consolida-se criando alternativas para mudanças radicais não somente na arquitetura, mas sobretudo no modus vivendi dos povos ocidentais". (SIMÃO, 2006, p. 23).

No século XIX a preocupação em preservar os monumentos se tornou algo mais evidenciado, embora que naquele momento isso não partisse de historiadores prontamente, mas de arquitetos, eruditos, filósofos, políticos, artistas etc. Neste caso, havia duas principais correntes teóricas à época: uma corrente francesa pautada pelo arquiteto Viollet-le-Duc (1814-1879), o qual defendia com base no racionalismo e num perfeccionismo estético, preservar os monumentos no intuito de manter sua aparência original, para isso defendia intervenções de restauração na estrutura, tentando recuperar sua fisionomia original. (SIMÃO, 2006, p. 25). 

A segunda corrente teórica, era inglesa, sendo liderada pelo escritor e crítico artístico John Ruskin (1818-1900), o qual de vertente culturalista, defendia se evitar intervenções aos monumentos, no máximo realizar obras de restauração e conserto para evitar sua degradação. Ruskin discordava da postura estética de Viollet-le-Duc, alegando que intervir mais profundamente no monumento era descaracterizá-lo, mesmo que o intuito fosse recuperar sua forma original, isso era muito complicado, sem contar que um monumento pode passar por modificações ao longo da História. (SIMÃO, 2006, p. 25). 

Sendo assim, a ideia de conservação patrimonial surgiu na Europa do século XVIII, mas se desenvolvendo no século seguinte principalmente na França e Inglaterra, depois na Itália e Grécia. 

"Quando criou-se, na França, a primeira Comissão dos Monumentos Históricos, em 1837, as três grandes categorias de monumentos históricos eram constituídas pelos remanescentes da Antiguidade, os edifícios religiosos da Idade Média e alguns castelos. Logo depois da Segunda Guerra Mundial, o número dos bens inventariados decuplicara, mas sua natureza era praticamente a mesma. Eles provinham, em essência, da arqueologia e da história da arquitetura erudita. Posteriormente, todas as formas da arte de construir, eruditas e populares, urbanas e rurais, todas as categoriais de edifícios públicos e privados, suntuários e utilitários foram anexadas, sob novas denominações". (CHOAY, 2001, p. 12). 

Inicialmente quando a ideia patrimonial começou a ser concebida ela era pensada a partir de um viés estético (a beleza da arquitetura antiga), um viés nacionalista (aqueles monumentos representavam grandes líderes do passado daquele país e povo), um viés técnico (o desenvolvimento artístico e tecnológico). 

Por outro lado, Simão (2006, p. 23) assinala que essa preocupação com o passado advinha também do fato que as pessoas haviam se esquecido de sua própria história. Já não sabiam mais quem era aquele homem na estátua, ou aquele edifício, ou porque aquela rua era batizada com tal nome. Devido a esse esquecimento se criou a necessidade de combatê-lo, de usar os monumentos para recuperar a história. Assim, o conceito de monumento inicialmente estava ligado a edificações e estátuas, no século XX ele foi ampliado, como nos apontara o historiador Jacques Le Goff. 


“A palavra latina monuentum remete para a raiz indo-européia men, que exprime uma das funções essenciais do espírito (mens), a memória (meminí). O verbo monere significa 'fazer recordar', de onde 'avisar', 'iluminar', 'instruir'. O monumentum é um sinal do passado. Atendendo às suas origens filológicas, o monumento é tudo aquilo que pode evocar o passado, perpetuar a recordação, por exemplo, os atos escritos. Quando Cícero fala dos monumenta hujus ordinis [Philippicae, XIV, 41], designa os atos comemorativos, quer dizer, os decretos do senado. Mas desde a Antiguidade romana o monumentum tende a especializar-se em dois sentidos: 1) uma obra comemorativa de arquitetura ou de escultura: arco de triunfo, coluna, troféu, pórtico, etc.; 2) um monumento funerário destinado a perpetuar a recordação de uma pessoa no domínio em que a memória é particularmente valorizada: a morte. O monumento tem como características o ligar-se ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, das sociedades históricas (é um legado à memória coletiva) e o reenviar a testemunhos que só numa parcela mínima são testemunhos escritos”. (LE GOFF, 1990, p. 536). 

Para Françoise Choay, monumento seria: 

"O monumento tem por finalidade fazer reviver um passado mergulhado no tempo. O monumento histórico relaciona-se de forma diferente com a memória viva e com a duração. Ou ele é simplesmente constituído em objeto de saber e integrado numa concepção linear do tempo - neste caso, seu valor cognitivo relega-o inexoravelmente ao passado, ou antes à história em geral, ou à história da arte em particular -; ou então ele pode, além disso, como obra de arte, dirigir-se à nossa sensibilidade artística, ao nosso "desejo de arte" (Kunstwollen): neste caso, ele se torna parte constitutiva do presente vivido, mas sem a mediação da memória ou da história". (CHOAY, 2001, p. 26).

Foi na França da segunda metade do XIX, onde surgiu o conceito de monumento histórico. Até então é preciso recordar que a ideia de preservar os monumentos estava predominantemente associada por um viés estético, político-nacionalista, técnico e memorialista. Lembrando que memória não é a mesma coisa que história, como já foi comentando anteriormente nesse texto. Nesse momento, os historiadores começaram a intervir no assunto, assinalando a importância histórica de tais monumentos. 

"A expressão monumento histórico só entrou nos dicionários franceses na segunda metade do século XIX. Seus uso, contudo, já se difundira desde o começo do século e fora consagrado por Guizot, quando, recém-nomeado Ministro do Interior, em 1830, criou o cargo de inspetor dos Monumentos Históricos. A expressão aparece já em 1790, muito provavelmente pela primeira vez, na pena de L. A. Millin, no momento em que, no contexto da Revolução Francesa, elaboram-se o conceito de monumento histórico e os instrumentos de preservação (museus, inventários, tombamento, restauração) a ele associados". (CHOAY, 2001, p. 28). 

A partir dessa noção de monumento histórico, surgiu a de patrimônio histórico

"Patrimônio histórico. A expressão designa um bem destinado ao usufruto de uma comunidade que se ampliou a dimensões planetárias, constituído pela acumulação contínua de uma diversidade de objetos que se congregam por seu passado comum: obras e obras-primas das belas-artes e das artes aplicadas, trabalhos e produtos de todos os saberes e savoir-faire dos seres humanos. Em nossa sociedade errante, constantemente transformada pela mobilidade e ubiquidade de seu presente, "patrimônio histórico" tornou-se uma das palavras-chave da tribo midiática. Ela remete a uma instituição e a uma mentalidade". (CHOAY, 2001, p. 11). 

No século XX surgiram outras noções de patrimônio (histórico, arquitetônico, artístico, arqueológico, cultural, etnográfico, biológico, geográfico, etc.), mas independente dessas noções, ainda continua sendo essencial o papel do historiador em orientar os patrimonialistas em definir e classificar o que seria um patrimônio disso ou daquilo. Sem orientação adequada, sem uma justificativa contundente, pode-se acabar cometendo-se equívocos. Essencialmente o patrimônio consiste numa forma de resgatar a memória local e coletiva, mas também de preservar através da cultura material e imaterial a história, tradição, identidade e legado de um povo. No caso do patrimônio biológico inclui-se a preservação de espécies e a preservação genética. 

Nesse sentido, hoje em algumas universidades já constam em seus currículos dos cursos de história, disciplinas relacionadas a essa questão patrimonial, não apenas no sentido de averiguar monumentos arquitetônicos, mas também estando ligado ao papel de museus, institutos, arquivos, bibliotecas etc. 

Nesse ponto, a historiadora Zita Possamai (2008, p. 208-210) assinala a importância de se ensinar os estudante do Curso de História acerca da relação do historiador com as instituições de preservação do conhecimento como museus, arquivos e bibliotecas, não apenas pelo motivo de que em tais locais os historiadores vão para pesquisar e consultar fontes e referências sejam textuais ou não, mas também como forma de ensinar os historiadores a função patrimonial a estes, mostrando que é também um dos ofícios do historiador preservar os bens culturais, a história escrita, material e imaterial. 

"Antes de mais nada, o historiador necessita apropriar-se de conceitos mínimos, tais como memória, patrimônio, documento, museu, arquivo, situando historicamente o surgimento e o desenvolvimento dessas noções no contexto internacional e brasileiro. Importa, sobretudo, ver esses conceitos como construções sociais no tempo, profundamente ligadas ao contexto histórico e ao jogo das relações sociais, rompendo com visões mitificadoras. [...]. Por outro lado, o historiador necessita conhecer as formas de proteção jurídica do patrimônio, tais como tombamento, inventários, e as legislações atinentes a essa problemática, percebendo a sua evolução ao longo do tempo". (POSSAMAI, 2008, p. 211). 

Através dessa educação ainda em nível de graduação, mas até mesmo em forma de pós-graduação, especialização e de estágio, o historiador poderá ampliar suas funções como pesquisador, mas também passando a atuar como patrimonialista, assessor, consultor e até mesmo exercer funções em museus, arquivos, bibliotecas, instituições públicas e privadas. No caso do Brasil dispomos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), fundado em 1937, órgão público responsável pelo estudo, mapeamento, preservação, conservação, restauração, educação, tombamento etc., do patrimônio histórico, artístico, arqueológico e cultural do Brasil. 

Além disso, vale mencionar que a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), desde de 1972, dedica atenção a conservação patrimonial através da Convenção para a Proteção do Patrimônio Mundial, Cultural e Natural, sendo bastante conhecido por promover a Lista de Patrimônio da Humanidade

8) O historiador como crítico:

É verdade que o historiador não deve fazer juízos de valor acerca do passado. Tentar agir como um juiz da temporalidade, julgando e absorvendo os mortos da História. (CARR, 1996, p. 92). A respeito dessa ideia do historiador como juiz, Edward Hallet Carr (1892-1982) mencionou o seguinte comentário do historiador italiano Benedetto Croce (1866-1952):


“A acusação esquece a grande diferença de que nossos tribunais (sejam jurídicos ou morais) são tribunais de hoje, destinados a homens vivos, ativos e perigosos, enquanto que aqueles outros homens já compareceram ao tribunal de seu tempo e não podem ser condenados ou absolvidos duas vezes. Eles não podem ser responsabilizados perante qualquer tribunal, qualquer que seja, apenas por serem homens do passado, que pertencem à paz do passado e como tal só podem ser sujeitos da história e não podem passar por outro julgamento a não ser por aquele que penetre e compreenda o espírito de seu trabalho... Aqueles que, sob a alegação de narrarem história, agitam-se como juízes, condenando aqui e absolvendo lá, porque pensam que esta é a função da história... são geralmente reconhecidos como desprovidos de sentido histórico”. (CARR, 1996, p. 92-93 apud CROCE, 1941, p. 47).

Nesse sentido, Carr salientava que mesmo se tratando da história presente, na qual os indivíduos históricos ainda estivessem vivos, isso era algo complicado de se fazer. Na época que ele escreveu seu livro Que é história? (1961), Hitler e Stalin já haviam morrido, mas as consequências de seus governos ainda eram sentidas. Carr indagava se poderia julgar ambos os ditadores, mas salientava que poderia tentar julgar suas ações e as consequências que elas deixaram. Sobretudo, ele salientava que era dever do historiador antes de julgar, entender, interpretar e analisar os acontecimentos de forma a deixar claro o que aconteceu e como ocorreu, tenha sido algo bom ou ruim. 


“Eis aí, entretanto, apenas o começo de nossas dificuldades. A história é um processo de luta no qual os resultados, bons ou maus, são atingidos por alguns grupos direta ou indiretamente - e, com mais freqüência, mais direta do que indiretamente – à causa dos outros. Os perdedores pagam. O sofrimento nasce com a história. Todos os grandes períodos da historia têm seus desastres e suas vitórias. Trata-se de uma questão muito complicada porque não temos meio que nos permita pesar o maior bem de alguns contra o sacrifício de outros: no entanto, deve-se tentar pesar. Não se trata de um problema exclusivamente de história”. (CARR, 1996, p. 94).

Sabemos que Napoleão Bonaparte (1769-1821) realizou três golpes de Estado, foi um déspota e talvez um tirano. Hoje não podemos julgá-lo pelos seus atos, mesmo os conhecendo, mas podemos analisar as consequências deles à época e posteriormente o término de seu mandato. Procurar agir com imparcialidade (sem tomar partido), a fim de mostrar os prós e contras de seu governo. Mas seria errado chamá-lo de déspota? Não. Pois na própria época ele já era visto assim. O problema reside quando se tenta torná-lo aquilo que não foi ou distorcer a realidade.

Abraham Lincoln (1809-1865) teve que se valer da corrupção do Senado, para poder aprovar sua Lei de Abolição da Escravatura. Com isso ele ofereceu propina aos parlamentares para que votassem a favor do seu projeto de lei. Nesse sentido, Lincoln prontamente deveria ser chamado de corrupto, já que agiu de forma incorreta e ilegal. Porém, o resultado de sua ação foi pôr fim a escravidão nos Estados Unidos da América (embora isso não significou o fim do racismo e do preconceito). 

Mas o oposto também ocorre. Maximilien de Robespierre (1758-1794), árduo defensor da república, da revolução, da justiça e da ordem, foi um eufórico orador no começo da Revolução Francesa (1789-1799) conhecido por sua fala enérgica. Por tal viés, ele deveria ser visto como um homem que estava procurando fazer o bem para a nação, combatendo a corrupção e os verdadeiros bandidos. Ele seria um herói. Mas a realidade não foi bem assim. Robespierre foi a favor de se combater a monarquia e os inimigos da revolução, mas após conseguir grande autoridade através do Comitê de Salvação Pública, órgão que ajudou a fundar, Robespierre iniciou uma caçada arbitrária aos seus desafetos, inimigos e a oposição de seu partido. Assim, centenas foram enviados a guilhotina por se oporem ao seu projeto de governo, sem contar aqueles que foram acusados por crimes que não haviam cometido. Se antes Robespierre era conhecido por apoiar o povo, ele passou a ser visto como um déspota que estava agindo como um carrasco. 

Uma vez o filósofo Voltaire de forma sarcástica disse que os historiadores perturbavam os mortos. Mas digo que não apenas os mortos, os vivos também. Na chamada história do tempo presente os historiadores escrevem sobre o que ocorreu nos últimos anos, décadas, mas comentam até mesmo sobre o que está ocorrendo atualmente. Normalmente são os historiadores que trabalham com história política, econômica e social principalmente quando são especializados em História Contemporânea (1789-presente) que participam mais destes debates, embora historiadores de história cultural e das religiões também se envolvam em alguns debates dependendo do tema. 

Um exemplo de como o historiador pode agir como crítico, advém de Eric Hobsbawm (1917-2012), historiador marxista e estudioso da Idade Contemporânea, principalmente sob o âmbito social, político e econômico, Hobsbawm escreveu vários livros e dezenas de artigos, em alguns a respeito do século XX, Hobsbawm por sua postura marxista em ser um questionador, comentou sobre vários acontecimentos, algo visível em dois de seus livros  Sobre História (1977) e A Era dos Extremos: o breve século XX (1994). 

Em uma conferência inaugural para o ano acadêmico de 1993-1994 da Universidade da Europa Central em Budapeste, Ucrânia, Hobsbawm falou a respeito do problema das fronteiras europeias, mas sobretudo, a respeito da problemática de uma identidade nacional, pois a Europa central e oriental durante quase um século vivenciou uma constante onda de invasões, ocupações, anexamentos, criações de países, divisão de outros países etc. 


“Cada Estado dessa área possui uma forma diferente da que possuía quando nasci. Apenas seis dos 23 Estados que agora preenchem o mapa entre Trieste e os Urais existiam no momento em que nasci, ou teriam existido se não tivessem sido ocupados por algum exército: Rússia, Romênia, Bulgária, Albânia, Grécia e Turquia, pois nem a Áustria pós-1918, nem a Hungria pós-1918, são realmente comparáveis à Hungria e à Cisleitânia dos Habsburgo. Vários deles passaram a existir depois da Primeira Guerra Mundial, e ainda outros depois de 1989. Entre esses, alguns nunca tiveram em sua história a condição de Estado independente na acepção moderna, ou a tiveram por um breve período — durante um ano ou dois, uma ou duas décadas — e depois a perderam, ainda que mais tarde a tenham recuperado: os três pequenos Estados do Báltico, a Bielo-Rússia, Ucrânia, Eslováquia, Moldávia, Eslovênia, Croácia, Macedônia, para não ir mais para o leste. Alguns nasceram e morreram no período de minha existência, como a Iugoslávia e a Tchecoslováquia. É perfeitamente comum para o morador mais velho de uma cidade da Europa central ter tido, sucessivamente, documentos de identidade de três Estados. Uma pessoa com a minha idade, de Lemberg ou Chernovtsy, viveu sob quatro Estados, sem contar as ocupações dos períodos de guerra; uma pessoa de Munkacs pode até ter vivido sob cinco, se contarmos a autonomia momentânea da Rutênia subcarpácia em 1938. Em tempos mais civilizados, como em 1919, por exemplo, essa pessoa poderia ter tido a opção de escolher uma nova cidadania, mas, a partir da Segunda Guerra Mundial, é mais provável que tenha sido obrigada a sair ou a se integrar ao novo Estado. A que país pertence um europeu central e oriental? Quem é ele ou ela? A pergunta, para um grande número deles, era e ainda é uma pergunta real. Em alguns países é uma questão de vida ou morte, afetando quase tudo e por vezes determinando seu estatuto legal e expectativas de vida”. (HOBSBAWM, 2013, p. 7-8). 

“Porém, há outra incerteza mais coletiva. O grosso da Europa central e oriental encontra-se naquela parte do mundo para a qual os diplomatas e peritos das Nações Unidas, a partir de 1945, tentaram divisar eufemismos gentis: “subdesenvolvida” ou “em desenvolvimento”, ou seja, relativa ou absolutamente pobre e atrasada. Em certos aspectos não há nenhuma divisão clara entre as duas Europas, mas, antes, um declive para leste e para oeste daquilo que poderíamos chamar pico ou crista do dinamismo econômico e cultural europeu, que corria do Norte da Itália, atravessando os Alpes até o Norte da França e Países Baixos, e se prolongava até o outro lado do canal da Mancha, na Inglaterra. Pode-se acompanhá-la nas rotas de comércio medievais e no mapa de distribuição da arquitetura gótica, bem como nas cifras para o PNB regional da Comunidade Europeia. De fato, essa região ainda hoje é a espinha dorsal da Comunidade Europeia”. (HOBSBAWM, 2013, p. 8). 

Escrever história é ser essencialmente crítico, isso nos mais diversos sentidos. Desde a Grécia Antiga, alguns historiadores como Heródoto e Tucídides já se mostravam críticos acerca dos acontecimentos que ocorriam, sobre a importância de compreender aquele processo e relatá-lo, para que o saber fosse difundido e posteriormente pudesse gerar reflexões sobre o ocorrido. Mais do que a Escola Metódica alemã dos positivistas, a Escola dos Annales foi quem voltou a deixar em evidência essa preocupação quanto a crítica ou o que Lucien Febvre prontamente chamou de "história-problema"

A partir desse princípio, Febvre concebeu o que ele chamou de "história-problema". Para ele o fato histórico não existia por si só, ele não se encontrava "pronto" nos documentos aguardando ser descoberto por um historiador, como o pensamento positivista passou a expor. Pelo contrário, os fatos históricos são "construções" que o historiador elabora a partir da crítica das fontes e suas investigações. Não devemos entender aqui o conceito de "construção" como criar uma mentira ou inventar, não. A ideia aqui é que nem todos os fatos são importantes para a História, que o passado por si só não faz a História. (VILAR, 2013).

Para Febvre o historiador inicia sua investigação a partir de um "problema", onde ele irá procurar nas fontes a solução para esse "problema", de forma a confirmá-lo ou desmenti-lo. Aqui Febvre reforça sua concepção que os fatos históricos não são inatos, não residem "prontos" nos documentos, pois um documento pode ter muito a dizer, ou pelo contrário, pouco a dizer. E além disso, nem todo documento possui uma significância para a História. Uma fonte tem serventia para a História, quando um historiador concede a ela uma cadeia de significados que a permitam ser encaixada num conjunto de significância maior em sua pesquisa que leve a alguma contribuição para algum aspecto da História. É a partir do "problema" proposto pelo historiador que se inicia a pesquisa histórica. (VILAR, 2013). 


É evidente que a perspectiva apresentada por Lucien Febvre evoluiu nas décadas seguintes, extrapolando a ideia de documento e monumento, passando para uma concepção mais ampla, envolvendo novos conceitos sobre sociedade e cultura. Nesse sentido, os historiadores do século XX, em alguns casos, tornaram-se mais críticos sobre a realidade do tempo presente, procurando quebrar tabus, procurando abordar assuntos pouco debatidos ou repensar a partir de outros posicionamentos o desenvolvimento da política, economia, sociedade, cultura, tecnologia, religião, civilização etc. 

Nesse caso o filósofo e historiador francês Michel Foucault (1926-1984), fez isso. Foucault escreveu uma trilogia sobre a história da sexualidade, escreveu sobre a loucura, hospitais, clínicas psiquiatrias, hospícios, "locais de poder", educação, ensino, vigilância, policiamento, governamentalidade etc. Em cada uma dessas obras, Foucault aproveitando sua formação de filósofo, procurou pensar determinados aspectos da História pouco debatidos, e nesse ponto, não apenas pensá-los, mas criticar o que foi escrito, o que era pensado, o que não era mencionado, como ocorreu e estava ocorrendo. 

A historiadora Arlette Farge em seu livro Lugares para a história (1997), procurou repensar como determinados assuntos sociais foram pensados e estavam sendo abordados. Farge abordou o sofrimento, a guerra, a violência, a fala, opiniões, gestos e a questão de gênero. É evidente que tais assuntos estão hoje bem em voga. De 2001 para cá aumentou o debate sobre guerras civis, terrorismo, violência, intervenção militar. Aumentou também os debates sobre gênero e sexualidade; opinião, mídia, preconceito, xenofobia, racismo, intolerância religiosa. Em tudo isso se percebe que embora trata-se de temas presentes, não impede que historiadores os estude. Em muitos casos o historiador ou historiadora quando aborda temas assim, os faz sob um olhar crítico e reflexivo, não necessariamente narrativo ou descritivo. 

"Certamente não é novidade para um historiador preocupar-se com os laços de seu discurso com a sociedade em que o inscreve: "quando falam da história, estão sempre na história", escrevia Michel de Certeau (1975, p. 28). Bem antes dele, Marc Bloch (1993, p. 97) tinha sublinhado reiteradas vezes a necessidade de ser curioso quanto aos problemas que agitam o mundo, de colocar questões pertinentes para a comunidade científica, de "unir o estudo dos mortos ao tempo dos vivos". (FARGE, 2011, p. 7-8). 

9) O historiador como assessor e consultor: 

Ao longo do século XX com o desenvolvimento da historiografia e das formas de como pensar, estudar e utilizar o conhecimento histórico, em alguns países os historiadores e historiadoras ganharam novas funções, estas estando envolvidas com trabalhos de assessoria e consultoria. 


Inicialmente essa atividade de assessoria e consultoria esteve bastante atrelada aos museus e arquivos públicos. Historiadores eram solicitados ou convocados para auxiliarem na avaliação e identificação das peças e documentos, como também ajudavam na organização e catalogação de tais objetos e artefatos. Posteriormente, teremos casos de historiadores indo à bibliotecas nacionais, institutos e instituições públicas e privadas, relacionadas com a história, memória, patrimônio, cultura, mas até com outros assuntos. 


“Mas ao organizar fontes, propondo séries documentais, sistematizando dados empíricos, formulará o historiador perguntas e cerzirá interpretações sobre o vivido que sugerirão sentidos para as pessoas. Esses sentidos convertem-se em identidades. Assim como todo indivíduo necessita ter a sua certidão de nascimento, o seu registro geral e outros dados que o identifiquem, também as instituições, as comunidades, as cidades e as sociedades precisam conhecer suas identidades culturais. Porque são essas identidades que facilitarão a consciência do que é intrinsecamente comum a todos, daquilo que transcende o individual, o particular. Identidades, portanto, facilitam a coesão social, contribuindo, destarte, na afirmação dos espaços públicos e da cidadania, no fortalecimento da democracia e na preservação da soberania, de uma nação ou de uma instituição, aspecto que procurarei desenvolver a seguir”. (AXT, 2004, p. 2-3).

A partir dessa fala o historiador Gunter Axt comenta que para além de instituições atreladas a história, memória e patrimônio como museus, arquivos e bibliotecas; órgãos públicos, entidades privadas, empresas etc., também recorrem ao ofício do historiador para auxiliar na elaboração da sua história, de seu legado, de sua memória. Assim, em alguns países temos órgãos públicos como tribunais, ministérios, assembleias, câmaras, universidades e escolas os quais recorreram aos historiadores, mas também se for o caso a museólogos, arquivologistas, bibliotecários, memorialistas, patrimonialistas etc., para auxiliar no processo de organização de acervos pessoais produzidos por tais instituições, ou para realizar alguma pesquisa ou outra função. 

Todavia, para além desses serviços de assessoria e consultoria prestados a instituições públicas e privadas, e órgãos públicos, os historiadores também prestam assessoria e consultoria para outros meios. Por exemplo, documentários históricos, sendo esse um dos mais comuns onde se encontram historiadores como consultores e até mesmo dando entrevista ou fazendo comentários. 

Outra forma de assessoria e consultoria é prestada a filmes, séries, novelas, desenhos, produções musicais e teatrais que se passam num determinado período histórico, em alguns casos, a produção recorre a historiadores para que auxiliem na montagem de tais produções: seja dizendo como as pessoas se vestiam, como eram os móveis, a arquitetura, a ambientação, os costumes, a mentalidade, o imaginário, como funcionavam as armas, equipamentos, máquinas etc. 

É evidente que nem todo filme, série, novela, desenho, musical e peça e até em alguns casos documentários fazem isso, e o resultado é um desfile carnavalesco de anacronismos e erros alarmantes que são passados ao público leigo como sendo retrato da verdade daquela época. Mesmo seriados com temática histórica como Os Vikings (2013-presente), Os Tudors (2007-2010) e Os Bórgias (2011-2013) possuem uma série de equívocos e material infiel ao contexto histórico que abordam. Todavia, essas séries consultaram historiadores e arqueólogos, ainda assim, cabe a produção se irão acatar ou não as sugestões destes profissionais. 

Uma saída seria tais produções de filmes, seriados, novelas e desenhos fazer algo visto em alguns jogos de videogame e livros, nos quais por mais que sejam abordados temas históricos, o autor ou a produção informam que embora seja uma história baseada em acontecimentos reais, alguns elementos da trama e personagens foram inventados ou alterados. 

A série de videogames Assassin's Creed iniciada em 2007 pela Ubisoft, a qual hoje em dia é bastante conhecida por se valer da História para a construção das narrativas e tramas de seus jogos, em cada jogo eles informam logo no início que se trata de uma produção multicultural baseadas em histórias reais, mas com um teor de ficção também. Inclusive os jogos da série contaram com a colaboração, assessoria e consultoria de historiadores e historiadoras. 

A historiadora das artes Blythe Brown, esposa do escritor Dan Brown, foi quem lhe forneceu muito das informações sobre artes, religião e sociedades secretas, temas recorrentes das obras do marido que abordam a história do professor de simbologia Robert Langdon. Mas embora Dan Brown tenha usado material histórico para construir suas intrigas, conspirações, teorias e fornecer a ambientação de suas tramas, ele em algumas entrevistas já disse que isso tudo em geral é ficção de conspiração. 

Não obstante, além da assessoria e consultoria prestada para o meio artístico como vimos, há casos de historiadores e historiadoras que são chamados para avaliar obras de arte, artefatos e objetos, os quais são vendidos em lojas de penhores ou em leilões. Nos grandes leilões europeus e asiáticos, não é incomum haver a assessoria ou consultoria de historiadores para avaliar e classificar as peças, seja no intuito de dizer se são reais ou falsificações, datá-las, descobrir sua procedência etc. 

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Referência da internet:

VILAR, Leandro. A Escola dos Annales: legados historiográficos de três gerações (1929-1989). Disponível em: http://seguindopassoshistoria.blogspot.com.br/2013/11/a-escola-dos-annales-legados.html. 13 de novembro de 2013. 

Links relacionados:
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Ranke: o Pai da História moderna
A fonte histórica e suas possibilidades na pesquisa da História
A Escola dos Annales: legados historiográficos de três gerações (1929-1989)
Uma tipologia dos estudos históricos: uma orientação para a pesquisa histórica