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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Tutancâmon e a maldição da múmia

Quando falamos em maldição da múmia muitos irão remeter-se a diversos filmes de terror com este título, todavia a história de uma suposta maldição da múmia ou maldição do faraó foi real. Ela ocorreu na década de 1920 no Egito, afetando supostamente dezenas de pessoas envolvidas nas escavações da tumba do faraó Tutancâmon. Meses e anos após a tumba ser descoberta, algumas pessoas que visitaram o local, começaram a morrer, então espalhou-se o boato de que uma antiga maldição havia sido despertada e aqueles que profanaram o descanso do corpo do faraó, agora pagariam com as próprias vidas. Neste texto veremos alguns aspectos dessa história e a verdade por trás de uma suposta maldição milenar. 


A máscara mortuária de ouro de Tutancâmon, uma das peças mais valiosas e conhecidas de seu tesouro. 
Introdução:

Não se sabe ao certo quando teria começado a história sobre uma maldição do faraó ou uma maldição da múmia, no entanto, essa lenda ficou bastante em evidência principalmente no século XX, após a descoberta da tumba de Tutancâmon. Mas antes de prosseguirmos para a história da descoberta de sua tumba e comentar acerca da suposta maldição, se faz necessário situar o leitor quanto a pessoa do faraó Tutancâmon. 

Inicialmente chamado de Tutancaton ("o que ama a imagem de Aton"), foi o décimo segundo faraó da XVIII Dinastia (c. 1580-1085 a.C), sendo filho do faraó Aquenaton e de Kiya, uma das esposas secundárias. Aquenaton anteriormente chamado de Amenófis IV ou Amenhotep IV, assumiu o trono por volta de 1353 ou 1350 a.C, tendo como rainha (ou Grande Esposa Real) Nefertiti. Uma das principais características de seu governo foi a criação de uma nova capital real chamada Aquetaton, e a instituição do culto a Aton, como religião oficial do Estado egípcio. Amenhotep IV herdou o interesse ao culto a Aton, de seu pai, o faraó Amenhotep III (SINGER, 2003). Antes de Aquenaton, o culto a Aton pelo que parece não possuía muitos adeptos ou tivesse grande influência na corte, como era o caso do culto a Amon, deus tutelar de Tebas, então capital do Egito. No entanto, foi com Aquenaton que o culto a Aton atingiu seu auge. 

Aquenaton e Nefertiti. Ao centro uma imagem com inscrições, mostrando o faraó e a rainha com duas de suas filhas, sendo iluminados pelos raios solares de Aton. Os bustos nos lados, são também exemplos da arte armaniana, estilo artístico desenvolvido durante o reinado de Aquenaton.
"No sexto ano de reinado, ele e sua família, juntamente com um grande séquito de funcionários, sacerdotes, soldados e artesãos, mudaramse para a nova residência, que chamou de Aquetaton (AkhetAton), (“Horizonte de Aton”), onde morou até sua morte, quatorze anos mais tarde. Mudou seu nome para Aquenaton (AkhenAton) ou “O que esta a serviço de Aton”, e concedeu a rainha o nome real de NeferNeferuAton, que significa “A beleza das belezas e Aton”". (BAKR, 2010, p. 60). 

A nova capital real Aquetaton foi construída em Amarna, que na época era uma região bem mais agradável de se morar, inclusive relativamente verdejante e com maior incidência de chuvas regulares, algo bem diferente do deserto que é hoje em dia. Todavia, a tentativa de Aquenaton de tornar o culto a Aton na religião oficial do Estado, e expandi-lo por todo o reino, acabou falhando. O faraó encontrou resistência dentro da corte, no clero (principalmente o clero de Amon), e no restante da população. 


"Além de proclamar Aton o único deus verdadeiro, Aquenaton injuriou as divindades mais antigas. Ordenou que o nome de Amon, em particular, fosse suprimido de todas as inscrições, até mesmo dos nomes próprios, como o de seu pai. Além disso, decretou a dissolução do clero e a dispersão dos bens dos templos. Foi com essa medida que Aquenaton provocou a mais violenta oposição, pois os templos eram sustentados por subvenções concedidas pelo governo em troca de bênçãos solenes aos empreendimentos estatais. Enquanto os tumultos se alastravam a sua volta, Aquenaton vivia na capital adorando seu deus único. Era a veneração do poder criador do Sol sob o nome de Aton". (BAKR, 2010, p. 60). 

A ideia de tentar promover um "monoteísmo" era algo inimaginável pelos egípcios antigos e suas crenças politeístas. De qualquer forma, isso acabou não vingando. Após cerca de 20 anos de reinado, com a morte de Aquenaton, o culto a Aton voltou a ser um culto simples, perdendo a ideia de ser uma religião estatal. 

Após a morte de Aquenaton, o trono foi assumido por um misterioso homem conhecido como Semenhkare, o qual segundo algumas teorias, teria sido genro de Aquenaton, tendo se casado com a princesa Meritaton (a filha mais velha de Aquenaton). Todavia, pouco se conhece sobre Semenhkare, o qual governou por cerca de 3 anos. Após a sua morte por volta de 1336 ou 1333 a.C, Tutancaton, na época renomeado para Tutancâmon ("o que ama a imagem de Amon"), foi coroado faraó aos oito anos de idade. No ano seguinte ele se mudou para Tebas, e Aquetaton começou a ser abandonada. Aos nove anos, Tutancâmon casou-se com uma de suas meias-irmãs, a princesa Ankhsenamon ("ela vive para Amon"). (VILAR, 2014). 

Tutancâmon e Ankhsenamon tiveram pelo menos duas filhas, mas ambas morreram prematuramente. Tutancâmon faleceu por volta de 1326 ou 1323 a.C, com cerca de 18 ou 19 anos. As causas da morte não são conclusivas, mas hoje alguns estudiosos do assunto, apontam que o faraó sofreu um grave ferimento em uma das pernas, e o ferimento pode ter infeccionado e o levado a morte. Outra hipótese sugere que ele morreu devido a uma queda, a qual não apenas feriu sua perna, mas teria causado hemorragia interna. Uma terceira linha de investigação sugere que ele teria sido assassinado. De qualquer forma, Tutancâmon governou por 9 anos. Após sua morte, sua esposa casou-se com o vizir Ay, o qual havia servido Aquenaton e Tutancâmon, e agora tornava-se faraó. 


Mural representando o faraó Tutancâmon e sua esposa a rainha Ankhsenamon, sendo iluminados pelos raios de Aton. Nota-se nessa imagem, que os motivos artísticos religiosos associados ao culto de Aton, ainda se faziam presentes, embora que ambos tivessem se afastado da crença pregada por seu pai. Museu do Cairo, Egito. 
Ainda hoje pouco se sabe sobre o governo de Tutancâmon. Sua fama não se deve ao seu reinado, feitos ou personalidade, pois isso é praticamente desconhecido, pois após a sua morte o clero de Amon, e faraós como Horemheb, Ramsés I, Seti I entre outros tentaram apagar da história egípcia a memória de Aquenaton e seu filho (e eles quase conseguiram). Sendo assim, a fama do faraó-menino advém da descoberta de sua tumba.

A descoberta da tumba de Tutancâmon: 

Ainda na Antiguidade, as pirâmides e tumbas reais foram saqueadas várias vezes, daí que quando os arqueólogos europeus começaram nos séculos XVIII e XIX a visitar o Egito, a fim de estudá-lo, se decepcionaram ao ver que os tesouros e até mesmo as múmias dos faraós haviam sumido das pirâmides e das tumbas. Todavia, os ladrões não obtiveram êxito completo; tesouros e múmias eventualmente foram descobertos com o tempo. 

No caso de Tutancâmon, em seu tempo, os faraós já não construíam mais pirâmides, pois eram obras muito caras e demoradas, neste caso, eles construíam tumbas e o local escolhido pela XVIII Dinastia foi o Vale dos Reis, situado próximo a Tebas (Uaset em egípcio antigo), então capital da época. 

"O Vale dos Reis, que os árabes chamam de Biban el-Moluk, "As portas dos reis", com evidente alusão às entradas das numerosas tumbas que já na antiguidade eram escavadas na montanha tebana, pé formado por uma profunda abertura na rocha calcária". (SILIOTTI, 2006, P. 184). 

Atualmente no Vale dos Reis são conhecidas mais de 60 tumbas, embora haja também tumbas de outros membros da nobreza, além de tumbas incompletas ou que foram escavadas, mas acabaram não sendo usadas. A escolha do vale tebano, antigamente chamado pelos egípcios de Ta sekhet-âat ("a grande pradaria"), não é exata, embora alguns egiptólogos sugiram que a Colina Tebana, a qual lembra uma forma piramidal, possa ter sido usada em alusão para a escolha daquele local, pois as pirâmides simbolizavam uma espécie de "escada" pela qual a alma do faraó subiria aos céus. Todavia, sabe-se que as primeiras tumbas escavadas no vale datam do XVIII Dinastia. O faraó Tutmés I (c. 1504-1492 a.C) pelo que foi descoberto, teria sido o primeiro faraó a ser sepultado no Vale dos Reis. 


Howard Carter
A tumba de Tutancâmon não é uma das maiores e nem uma das mais adornadas com pinturas, mas é famosa por ter mantido o tesouro quase que intacto, quando foi descoberta pelo arqueólogo e egiptólogo britânico Howard Carter (1874-1939). Embora Carter seja principalmente lembrado na história por ter descoberto a tumba de Tutancâmon, antes disso acontecer, ele já vinha trabalhando há vários anos no Egito. Em 1891, com a idade de 17 anos, ele começou a trabalhar com o egiptólogo Percy Newberry, atuando como artista, realizando ilustrações sobre as paisagens e monumentos egípcios. Nessa época, Carter não possuía nenhuma formação acadêmica ou conhecimento de egiptologia e de arqueologia. Foi a partir desse contato inicial que Carter se interessou cada vez mais pela egiptologia, então acabou viajando ao Egito e se filiou ao Egyptian Exploration Found, passando a cooperar nas pesquisas arqueológicas. Tornou-se ajudante do renomado arqueólogo Flinders Petrie, o qual o enviou para trabalhar no túmulo de Deir el-Bahari ("o mosteiro do norte"), onde se encontram os templos dos faraós Menthuhotep (XI Dinastia), de Tutmés IIIHatshepsut (ambos da XVIII Dinastia). 

De qualquer forma, Carter passou oito anos trabalhando nas inscrições e gravuras de Deir el-Bahari, além de exercer outras atividades. Em 1899 o diretor do Service des Antiquités Égyptiennes, Gaston Maspero tendo apreciado o trabalho de Carter, o nomeou para o cargo de inspetor de monumentos do Alto Egito, com sede em Tebas. Carter exerceu o importante cargo até 1904, quando após desentendimentos com Maspero, pediu demissão. (SELIOTTI, 2006, p. 92-94). 

Em 1907, o arqueólogo amador Theodore Monroe Davis (1837-1915), o qual era um rico advogado e bastante interessado na história egípcia, patrocinou várias expedições próprias ao Egito entre 1889 e 1912, descobrindo a tumba do faraó Horemheb (c. 1319-1307), último faraó da XVIII Dinastia, e antigo general de Tutancâmon. Dentro da tumba do faraó, foram encontrados menções a Tutancâmon, inclusive uma tumba vizinha também achada por Davis, continha menções ao até então desconhecido faraó Tutancâmon.

Na época, Theodore Davis cogitou que se tratasse da tumba de Tutancâmon, a qual estava vazia, pois teria sido saqueada. Em 1912 ele publicou um livro intitulado The Tombs of Harmhabi e Touatânkhamanou. O problema desse livro era que de fato ele estava certo quanto a tumba de Horemheb (KV57), mas a tumba KV54 não pertencia a Tutancâmon, era uma tumba abandonada. Inclusive alguns arqueólogos desde 1907 já duvidavam da afirmação de Davis quanto a tumba KV54, ser a do faraó desconhecido Tutancâmon. 

Ainda no ano de 1907, Howard Carter conseguiu patrocínio para realizar suas próprias escavações. O dinheiro veio de George Edward, 5 Conde de Carnarvon (1866-1923), mais conhecido como Lorde Carnarvon, um rico nobre britânico, fascinado pelo Egito. A parceria entre Carter e Carnarvon foi longeva. Sob o patrocínio dele, Howard Carter empreendeu várias escavações em diferentes localidades do Egito, até que com a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), várias pesquisas, escavações e expedições arqueológicas no Egito foram suspensas. Três anos depois, próximo ao término da guerra, os projetos foram retomados, dessa vez Howard Carter recebeu permissão para trabalhar no Vale dos Reis. 


Howard Carter e seu patrocinador, o Lorde Carnarvon. 
Carter que até então não havia descoberto nada de importante de 1907 a 1914, acreditava que no Vale dos Reis pudesse fazer seu nome (um ideal buscado pela maioria dos arqueólogos da época). No entanto, esse sonho tardou a chegar. Em 1921, cansado, frustrado e sob ameaça de perder o patrocínio de Lorde Carnarvon, devido as infrutíferas escavações, Lorde Carnarvon comprometeu-se e apoiar as pesquisas de Carter por mais um ano, sendo esse o prazo limite. 

Em 4 de novembro de 1922, um dos operários encontrou um degrau de pedra, cuja escadaria adentrava a rocha. A entrada estava quase que totalmente oculta, devido a milhares de anos do movimento das areias e do sopro do vento. Carter ficou bastante animado com aquilo, pois acreditava-se que poderia ser a tumba de algum faraó. A esperança era que a tumba não tivesse sido saqueada, e finalmente pudessem encontrar um tesouro ali. Então ele escreveu um carta ao seu benfeitor, Lorde Carnarvon, o convidando a ir ao Egito para testemunhar a descoberta. Carnarvon aceitou e chegou dias depois. Em 24 de novembro começou a remoção da areia da entrada da nova tumba. 

Após removerem grande quantidade de areia, quatro dias depois, finalmente puderam adentrar ao corredor da tumba, deparando-se com uma parede inicial, onde para a surpresa e alegria de todos, liam-se o nome de Tutancâmon. Posteriormente, constatou-se que a tumba teria sido invadida pelo menos duas vezes, pois alguns objetos situados no corredor, não estavam mais ali, de qualquer forma, a sala do tesouro, e as demais câmaras estavam intactas. No final de 1922, o muro que lacrava a antecâmara, foi aberto. 


Fotografia de 1923, mostrando o interior da tumba de Tutancâmon. Na imagem, Carter (agachado), seguido por Arthur Callender (um dos seus colaboradores) e um operário observam o interior do cofre folheado a ouro, no qual estavam guardados os vasos canopos, com os órgãos do faraó Tutancâmon. 
A tumba de Tutancâmon foi considerada a descoberta do século para a egiptologia. Foram encontrados cerca de 3.500 objetos guardados em todas as câmaras da tumba, inclusive a múmia do faraó estava ali e intacta, protegida por seus quatro sarcófagos. Os jornais e revistas noticiaram a descoberta por semanas.

"Quando a câmara sepulcral da tumba de Tutancâmon foi aberta oficialmente em 17 de fevereiro de 1923, depois de esvaziada a antecâmara, havaim passado mais de dois meses desde aquela famosa tarde de 28 de novembro de 1922, quando Carter, lorde Carnarvon, sua filha lady Evelyn e Callender ali penetraram, quase furtivamente, pela primeira vez. Para esvaziar a antecâmara foram necessários quase 50 dias. O tempo necessário para deslocar todos os objetos, os sarcófagos e os cofres de madeira da sala do sarcófago foi incomparavelmente superior e o trabalho perdurou até novembro de 1930, oito anos depois da descoberta". (SELIOTTI, 2006, p. 197).

 
Esquema da tumba de Tutancâmon, tal qual como foi achada. Os objetos da imagem, seguem a posição original que se encontravam. 
Além da demora de se levar os objetos mais pesados e delicados para os museus, algo que rendeu oito anos de trabalho para esvaziar completamente a tumba, a própria múmia de Tutancâmon também rendeu um árduo desafio. Ela foi sepultada dentro de quatro sarcófagos. O primeiro feito de pedra, adornado com imagens de deusas e outros símbolos, ainda hoje se encontra na tumba, devido ao seu peso. Dentro desse grande sarcófago de pedra calcária, estavam outros três sarcófagos: um feito de quartzo, medindo 2,24 metros, o qual dentro deste abrigava os outros dois. O sarcófago de quartzo também continua na tumba, mas por sua vez, os outros dois sarcófagos, o de madeira folheada a ouro (2,04 m) e o de ouro maciço (1,87 m), residem no Museu do Cairo. Dentro do sarcófago de ouro maciço, o qual pesa cerca de 110 kg, estava a múmia de Tutancâmon com sua famosa máscara de ouro, a qual pesa 10 kg, e mais 150 amuletos de proteção, além de várias joias. (SELIOTTI, 2006, p. 102).



Howard Carter e um operário, removendo a camada de betume usada para cobrir o sarcófago de madeira. A ideia era caso a tumba fosse profanada, isso dificultaria o acesso ao sarcófago de ouro e a máscara mortuária de ouro. Levou-se meses para se remover o betume, pois o processo teve que ser feito de forma bem lenta, para não danificar um sarcófago com mais de três mil anos de idade. Foto tirada em 1923. Na imagem, para facilitar o trabalho de remoção da película de betume, os sarcófagos foram removidos do grande sarcófago de pedra. 
A descoberta da Tumba de Tutancâmon (KV62) rendeu a fama e glória que Howard Carter e Lorde Carnarvon ansiavam. Seus nomes ficariam na História, por tal façanha. Mas embora tenham se levado oito anos para a remoção de todos os objetos e artefatos da tumba, e mais alguns anos de estudo dos murais e inscrições, na mesma época que corria a fama da descoberta e seu grande tesouro, começou a surgir o boato de uma maldição. 

A morte de Lorde Carnarvon: 

A câmara funerária foi aberta oficialmente em fevereiro de 1923, e isso novamente tornou-se notícia para vários jornais do mundo. Todavia, Lorde Carnarvon com buscava por fama, fechou um contrato com o jornal britânico The Times, garantindo exclusividade para cobrir o evento. Além disso, Carnarvon já havia entrado em negociação com um produtor de Hollywood, chamado Sam Goldwyn, para produzir um filme sobre a descoberta da tumba de Tutancâmon. Todavia, o fato de Lorde Carnarvon ter concedido exclusividade de cobertura a apenas um jornal, não agradou outros jornais e revistas, especialmente o Daily Express e o Daily Mail, os quais chegaram a enviar jornalistas ao Egito, a fim de conseguir extrair algo da descoberta do século. (LUKHURST, 2010, p. 6).


Fotografias de Harry Burton, para o jornal Times, de 17 de fevereiro de 1923. O jornal na época recebeu direito exclusivo de cobrir as escavações da tumba de Tutancâmon. Fonte: The Metropolitan Museum of Art.
Entretanto, os louros da glória que Lorde Carnarvon esperava colher por ter patrocinado a escavação arqueológica de Howard Carter, não puderam ser desfrutados. Em março daquele ano, o lorde britânico adoeceu. Não se sabe ao certo as causas da doença de Lorde Carnarvon, o qual começou a desenvolver uma febre intensa e contínua até que desenvolveu pneumonia semanas depois. Lorde Carnarvon faleceu em 5 de abril de 1923, na cidade do Cairo, aos 56 anos. Segundo um depoimento de sua neta, Patricia Leatham, no dia da morte do avô, faltou luz no Cairo, por pelo menos vinte minutos, e no mesmo dia, faleceu Susie, a cadelinha de estimação de seu avô, a qual havia ficado na Inglaterra. (LUKHURST, 2010, p. 8).


Edição de 5 de abril de 1923, do Morning Call, Pennsilvânia, Estados Unidos. O jornal traz a matéria Earl of Carnarvon succumbs at Cairo to blood poisoning. Mais abaixo, à direita, a matéria prossegue dizendo que o lorde teria sido picado por um inseto, e assim "contraído" pneumonia. A notícia também destaca a descoberta da tumba de Tutancâmon,
Enquanto os jornais comentavam a repentina doença mortífera que acometeu Carnarvon, outros apontavam as possíveis causas da morte, a qual foi pneumonia, no entanto, questionavam como o lorde havia contraído mortífera doença de uma ora para a outra, então surgiram alguns comentários e boatos maldosos. A famosa escritora inglesa Marie Corelli deu um comentário bastante inadequado, embora imbuído com certo sarcasmo, dizendo: “I cannot but think some risks are run by breaking into the last rest of a king of Egypt . . . According to a rare book I possess, which is not in the British Museum . . . the most dire punishment follows any rash intruder into a sealed tomb”. (LUKHURST, 2010, p. 6).

No dia seguinte a morte de Carnarvon, o também importante escritor inglês Sir Arthur Conan Doyle (criador de Sherlock Holmes), em entrevista curta ao Morning Post de Nova York, Doyle que era adepto do Espiritismo, alegou que Lorde Carnarvon ao entrar naquela tumba milenar, estava mexendo com forças ocultas e místicas, e um antigo mal poderia ter causado a morte dele. O jornalista, egiptólogo e escritor Arthur Weigall o qual havia sido enviado pelo Daily Express para cobrir em fevereiro a abertura da câmara fúnebre de Tutancâmon, como os demais jornalistas e repórteres, ficou frustrado por não poder entrevistar Carter, Carnarvon e os demais envolvidos e nem se quer adentrar a tumba e tirar fotos. 

Em uma matéria sua, intitulada Tutankhamon and Other Essays, de forma desdenhosa, Weickall comenta que o presunçoso e soberbo Lorde Carnarvon não mostrava nenhum respeito pelo túmulo do faraó. Seria bem capaz que pagaria por tal esnobismo e arrogância. A matéria publicada em fevereiro, voltou a repercutir em abril, pois ele havia dito que Lorde Carnarvon poderia falecer dentro de seis semanas. Weickall ainda naquele ano publicou um ensaio polêmico e sensacionalista intitulado The Malevolence the Ancient Egyptian Spirits, o qual aproveitando a alta do interesse por ocultismo, magia, esoterismo, história, arqueologia, etc., ele relatou supostas experiências suas ao testemunhar estranhos fenômenos paranormais e ter contato com antigos objetos egípcios místicos. (LUKHURST, 2010, p. 6).


A edição de 6 de abril de 1923, do Detroit News trazia a matéria Tomb digging to go on despite Curse of Egypt. A matéria falava sobre a descoberta da tumba de Tutancâmon, o falecimento de Lorde Carnarvon e uma possível maldição da múmia. 
Nas semanas e meses seguintes vários jornais e revistas começaram a publicar matérias falando de uma suposta maldição da múmia, a qual teria vitimado Lorde Carnarvon. Baixado a poeira, após o assunto ter aparentemente se esgotado, outros envolvidos nas escavações começaram a morrer, ao mesmo tempo em que outros boatos surgiram. Isso tudo somado ao sensacionalismo da época, voltou a ganhar destaque na imprensa mundial. 

A maldição do faraó: 

Em 16 de maio de 1923, o empresário e magnata George Jay Gould I, faleceu na Riviera francesa, devido a pneumonia. Anteriormente Gould havia visitado o Egito, e passado pela tumba de Tutancâmon. Os jornais sensacionalistas atribuíram sua morte como tendo sido resultado da maldição do faraó. Ainda no mesmo ano, em 23 de setembro, um meio-irmão de Lorde Carnarvon, o coronel Aubrey Herbert morreu de "envenenamento sanguíneo", causa similar a de seu irmão. Em 15 de janeiro de 1924, o radiologista Archibald Douglas-Reid, o qual trabalhava no estudo da múmia de Tutancâmon, faleceu de causas misteriosas. (LUKHURST, 2010, p. 8).

Em outubro daquele ano, o governador-geral do Sudão, Sir Lee Stack, em visita ao Cairo, foi emboscado na rua e assassinado. Em 6 de abril de 1928, o egiptólogo Arthur Cruttenden Mace, o qual havia participado das escavações na tumba de Tutancâmon, morreu acidentalmente por envenenamento por arsênico. No ano de 1929, o secretário de Howard Carter, o capitão Richard Bethall, faleceu de forma misteriosa no London Club. Três meses depois o pai de Bethall cometeu suicídio, jogando-se de uma janela. (LUKHURST, 2010, p. 8-9). Além desses nomes importantes, alguns dos operários que trabalharam nas escavações ou na remoção do tesouro, também faleceram.

Enquanto alguns jornais se questionavam se a morte de determinadas pessoas poderiam ou não ser ligadas a suposta maldição da múmia, outros de forma contundente alegavam haver provas sobre a maldição, dizendo que certos artefatos haviam sido destruídos por Carter e Carnarvon em fevereiro de 1923. Segundo tais relatos, um deles dizia que uma tabuleta encontrada na antecâmara continha os seguintes dizeres: "a morte chegará voando à aqueles que profanarem a tumba do faraó". Outro relato dizia que na parede da sala do tesouro estava escrito: "morte a àqueles que entrarem". Segundo estes relatos, Howard Carter e Lorde Carnarvon teriam destruído a tabuleta e riscado a inscrição, para não levantar superstições entre os operários. (SILVERMAN, 1987, p. 60).

Em 1934 o jornalista e escritor Arthur Weigall, o qual escreveu alguns artigos sobre a tumba de Tutancâmon, inclusive chegou a visitar o local, e ficou de antipatia para Carnarvon e Carter, faleceu naquele ano. Na época, alguns jornais noticiaram que ele foi vítima da maldição. Em 1938 o diretor-geral  do Egyptian Antiquites Departement, o dr. Gamal Mehrez, faleceu. Mehrez havia sido responsável por enviar parte do tesouro de Tutancâmon para o Museu de Londres(SILVERMAN, 1987, p. 61).


Jornal londrino de 22 de fevereiro de 1930, relacionando novas mortes com a maldição da múmia. 
Outras mortes foram associadas com a suposta maldição, algumas inclusive bastante questionáveis, pois as vítimas nem se quer tinham ido ao Egito, e muito menos conheciam Carter, Carnarvon ou tinham ido a tumba. Todavia, como apontado por David Silverman (1987), isso fazia parte do sensacionalismo dos anos 20 e 30, o qual foi responsável por manter em alta essa história. Inclusive anos depois, o filho e uma neta de Lorde Carnarvon deram entrevistas sobre o assunto, fornecendo novas informações, as quais foram usadas para reanimar a história da maldição. Nos anos 1970, em uma exibição de peças do tesouro de Tutancâmon, em Chicago, nos Estados Unidos, algumas pessoas tiveram medo de ir vê-las, pois temiam serem amaldiçoadas. (SILVERMAN, 1987, p. 60). 

Considerações finais: 

Após décadas desde a descoberta da tumba do faraó Tutancâmon, ainda não se havia chegado a uma explicação racional acerca do por que atribuírem uma suposta maldição. Para isso é preciso se pensar em alguns pontos, os quais normalmente são esquecidos ou não cogitados. 

A tumba foi aberta propriamente em 1922, mas oficialmente a câmara fúnebre em 14 de fevereiro de 1923. A história da maldição somente se inicia com a morte de Lorde Carnarvon em maio daquele ano, ocasionada pelo agravamento de pneumonia. Sua filha Lady Evelyn, Howard Carter, Arthur Mace, entre outros arqueólogos, egiptólogos, operários e visitantes os quais passaram na tumba, não morreram. 

O próprio descobridor da tumba, Howard Carter, faleceu de velhice aos 67 anos, em 2 de março de 1939. Se a maldição recaía sobre pessoas importantes, pois parte das supostas vítimas, eram pessoas de riqueza, autoridade e influência, por que o seu descobridor não morreu? Se segundo um dos jornais, ele e Carnarvon teriam destruído as inscrições que falavam de uma maldição? Isso não seria profanação?

Outro fato a ser comentado diz respeito a popularidade de ideias e histórias envolvendo paranormalidade, ocultismo, magia, espiritualidade, história, além da egiptologia, ainda em alta naquele tempo. Aqui nota-se que algumas das pessoas que deram entrevistas e diziam que uma maldição ou forças ocultas teriam matado Lorde Carnarvon, eram escritores influentes como Marie Coelli e Arthur Conan Doyle, inclusive Sir Doyle foi mais enfático em sua fala. Não obstante, jornalistas sensacionalistas como Arthur Weigall e vários outros aproveitaram para aumentar a história.   

Maldições são seletivas? Essa é uma pergunta que alguns jornalistas e até estudiosos se fizeram. Como dizer que entre centenas de pessoas que visitaram a tumba de Tutancâmon entre 1922 e 1930, período que compreende a época que o seu tesouro estava sendo removido para os museus, apenas pouquíssimas pessoas faleceram? E mais, por que a maioria das vítimas eram pessoas ricas, influentes ou nobres? A maldição apenas atacava os ricos? Mas ainda assim, não era qualquer rico. 

Na década de 1980, alguns microbiólogos, infectologistas, entre outros estudiosos de áreas afins, publicaram artigos nos quais defendiam que a causa da morte de algumas pessoas que visitaram a tumba de Tutancâmon, principalmente de alguns operários, pois estes passavam mais tempo na tumba (embora os noticiários não lhes davam importância), teria sido motivada por uma infecção causada por fungos que habitariam a tumba. O contato com aquele ar pesado, tumular, poeirento, cheio de esporos, levou alguns operários de saúde mais sensível a acabarem adoecendo. Até mesmo outras pessoas que ali passaram, como o artista Charriel Manson, que visitou o Egito e a tumba de Tutancâmon com sua esposa. Ao voltar aos Estados Unidos, adoeceu e faleceu. A causa da morte de Manson foi diagnosticada como infecção por Aspergillus niger, uma espécie de fungo. 

Entretanto, a teoria dos fungos não responde todas as causas das mortes atribuídas a maldição. Como apontado pelas pesquisas, algo que David Silverman (1987) salienta que várias pessoas adentraram a tumba nestes anos, e nem por isso faleceram. Além disso, ele também fala que de fato existem maldições antigas, inclusive algumas já foram achadas escritas em pirâmides e tumbas, mas na tumba de Tutancâmon elas estão ausentes. A questão é que uma maldição somente funciona se a pessoa acreditar que ela funcione, pois isso se envereda-se pelo nível da crença, da superstição e da fé. 

No caso de mortes como de Lorde Carnarvon e seu irmão Aubrey Herbert, essas não foram causadas pelo fungos. Carnarvon faleceu de pneumonia e seu irmão de uma infecção após a extração mal sucedida de um dente. Outros morreram de acidente ou foram assassinados. Mas como apontado, tais mortes foram atribuídas por alguns jornalistas a suposta maldição. Mas uma pergunta que fica: por que pessoas que nada tiveram a ver com as escavações, morreriam? Que maldição aleatória seria essa? 

Em si, a maldição da múmia do faraó Tutancâmon, foi um grande boato sensacionalista, bastante em voga entre as décadas de 20 e 30, rendendo várias manchetes de jornais e revistas, livros e até inspirando filmes como A Múmia (1932). E isso tudo contribuiu para a difusão e preservação dessa história vários anos depois, ao ponto de algumas pessoas ainda nos anos 1970, temerem a terrível maldição.  

Referências Bibliográficas: 
BAKR, A. Abu. O Egito faraônico. In: MOKHTAR, Gamal (editor). História Geral da África - II: África Antiga. 2a ed, Brasília, UNESCO, 2010.
LUCKHURST, Roger. The mummy's curse: a study in rumour. Critical Quarterly, vol. 52, n. 3, 2010, p. 6-22. 
SILIOTTI, Alberto. Egito. Barcelona, Ediciones Folio, S. A., 2006. 
SILVERMAN, David. The Curse of the Curse of the PharaohsExpedition Magazine, vol. 22, n. 2, July 1987, p. 58-63. 
SINGER, Graciela N. Gestoso. Atonismo e Imperialismo. Revista Davar Logos, v. 1, n. 2, 2002, p. 163-187.
STEWART, John. Curses! Fungus Dispels the Myth of King Tut's Tomb. Los Angeles Times, 30 de julho de 1985. 
VILAR, Leandro. Aquenaton e a reforma monoteísta no Egito Antigo. 2014. Disponível em: http://seguindopassoshistoria.blogspot.com.br/2014/02/aquenaton-e-reforma-monoteista-no-egito.html

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quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Sementes douradas: uma história sobre o milho

Ano passado decidi ingressar de forma rápida nos estudos da história da alimentação, tendo redigido quatro textos na ocasião, escrevendo sobre o açúcar, o café, o chocolate e as especiarias. Meses depois, meu interesse por essa área dos estudos históricos retorna e agora com outras fontes disponíveis. Dessa vez, retomando ao estudo do papel dos alimentos não apenas no sentido biológico e químico, como fornecedor de energia calórica, nutrientes, vitaminas, proteínas, carboidratos, etc., essenciais para a manutenção do organismo, os alimentos possuem um papel cultural, social e econômico. Como visto na história sobre o açúcar, o café, o chocolate e as especiarias como tais alimentos moldaram comportamentos, costumes, mercados, políticas, etc., novamente volto a fazer o mesmo, agora com o estudo de um dos cereais mais consumidos no mundo atualmente, o milho. 

O pé de milho: 

O milho é uma planta nativa da América Central, pertencente ao gênero Zea, também conhecido como teosinto. O gênero Zea pertence a família Poaceae, uma enorme família de gramíneas que abarcam espécies vegetais como o trigo, o arroz, o sorgo, capim, grama, cevada, aveia, milheto, cana de açúcar, etc. Em termos biológicos, o milho (Zea mays), a qual é a espécie mais comum, é parente da cana de açúcar e de outros cereais e gramíneas. Daí o milho ser considerado uma das espécies cereais mais antigas a terem sido domesticadas pela humanidade (MESSER, 2000, p. 99). 

Segundo Ellen Messer (2000, p. 99) existem três teorias acerca da origem do milho: a primeira diz que o ancestral do milho é o teosinto anual. A segunda diz que o ancestral do milho ainda não foi descoberto, logo é uma planta desconhecida, pois as amostras encontradas pelos paleontólogos, são exemplares de plantas domésticas e não do ancestral silvestre. A terceira diz que o milho originou-se do intercruzamento de uma espécie de teosinto com alguma gramínea selvagem, hoje desconhecida. 

Alguns pesquisadores apontam que foi no que hoje é o México e na Guatemala que teve-se início a domesticação de algumas variedades de milho. O milho teria surgido entre 10.000 a.C e 7500 a.C, sendo originalmente uma planta pequena, a qual produzia poucas espigas, que por sua vez possuíam poucas sementes. Vestígios paleontológicos encontrados em Puebla, México, apontam para uma espiga de milho com 19 a 25 milímetros de comprimento, e fileiras com 8 grãos. Os estudiosos sugerem que as primeiras espigas fossem pequenas, cabendo na palma da mão. Após séculos de cultivo e seleção dos melhores grãos, teria surgido as espécies de milhos cujas espigas hoje são conhecidas (MESSER, 2000, p. 100). 

A data de cultivo do milho ainda não é precisada, diferentes estudiosos apontam que o milho teria começado a ser domesticado entre 3500 a.C e 1500 a.C. No entanto, por volta de 3000 a.C, algumas espécies de milho teriam sido introduzidas na Cordilheira dos Andes, onde hoje são os países da Colômbia, Equador, PeruBolívia e no sul dos Estados Unidos. Por volta de 2100 a.C, teria sido levado para a costa leste americana (HIGMAN, 2012, p. 48). Diferente do que alguns pensam, não foram os colonizadores ingleses que introduziram o cultivo de milho nos Estados Unidos, povos indígenas já o cultivavam milênios antes dos ingleses chegarem. Por volta do ano 1000 a.C, houve um crescimento na variação de espécies de milhos. Neste caso os estudiosos apontam três polos de desenvolvimento do cultivo de milho: um polo mesoamericano, um polo andino e um polo norte-americano. (MESSER, 2000, p. 100). 


Fotografia de um milharal no Brasil. Em destaque algumas espigas de milho já maduras para serem colhidas. 
Diferente de plantas como a cana de açúcar e o cacaueiro, as quais necessitam de clima quente para se desenvolver, o milho conseguiu ao longo de milênios adaptar-se tanto ao calor quanto ao frio. Fato este que se reflete principalmente na condição de que milho era cultivado pelos povos andinos, como os incas, em plantações com mais de 3 a 4 mil metros de altitude em relação ao mar. Além disso, milho também é cultivado no norte dos Estados Unidos, sul do Canadá e no norte da Europa. Além da mudança de altitude e de clima, o milho também conseguiu se adaptar as variações pluviométricas, adaptando-se desde regiões chuvosas como a Colômbia, Venezuela, Brasil, até regiões com baixos níveis de chuva, como o sertão brasileiro e algumas áreas da Rússia, e em alguns países africanos. (MESSER, 2000, p. 98).

Em regiões quentes, o milho se desenvolve mais rápido, podendo haver mais de uma colheita ao ano. Em regiões temperadas e frias o amadurecimento da planta demora mais, podendo levar de 6 até 13 meses, para estar apta a ser colhida. Ainda assim, o milho não consiste numa cultura complicada de ser cultivada, como também fornece muitos grãos por metro quadrado, mas isso somente ocorre hoje em dia graças a séculos de domesticação e intercruzamento entre espécies, pois as primeiras espécies de milho possuíam poucas espigas, além destas serem pequenas e com poucos grãos. Até o final dos anos 1990, eram catalogadas 300 espécies de milhos. Resultado de milênios de intercruzamentos e no século XX, de pesquisas biológicas. (MESSER, 2000, p. 99).

Embora as variedades mais comuns de milho sejam da cor amarela, existem espécies nas quais os grãos de milho possuem uma coloração diversificada, passando pelo laranja, amarelo escuro, branco, vermelho, marrom, cinza, preto, roxo, azul, rosa, etc. Nesta imagem vemos várias espécies de milhos oriundas do Peru. 
Enquanto plantas como a cana de açúcar, o cacaueiro e o cafeeiro possuem poucas variedades, o milho é uma das plantas com o maior número de espécies no mundo, algo equiparável a outros tipos de plantas como o feijão e o arroz. Logo, apresentar dados sobre o pé de milho seria algo complicado, pois dependendo da espécie e da variação, há plantas que vão de 60 cm a 6 metros de altura. Plantas que produzem de 8 a 48 espigas (algumas variedades modificadas geneticamente, hoje em dia passam dessa quantidade). Espigas que variam do tamanho de um grão até mais de 40 cm de comprimento, possuindo uma ou mais de cem grãos. Até a quantidade de grãos por espiga varia de espécies para espécie, assim como sua coloração. A imagem acima já nos mostra isso. Além disso, algumas espécies de milho são mais adaptáveis a climas quentes, moderados, úmidos, secos e frios. (MESSER, 2000, p. 101). 

Entre as centenas de espécies e suas variações, hoje a agronomia basicamente classifica os milhos em cinco categorias:
  • Milho indentado ou dentado: consiste na categoria mais comum, e a mais cultivada principalmente nas Américas. É o característico milho amarelo que conhecemos. Rico em amido, é bastante nutritivo, daí ser usado principalmente como alimento. 
  • Milho indurato ou duro: popularmente chamado de "milho-duro". Possui menor quantidade de amido, daí seus grãos serem mais secos e mais duros. Geralmente possui uma coloração amarelo claro ou branca. Devido a ter grãos mais duros o que dificulta sua ingestão, mesmo após cozido. As pessoas costumam triturá-lo para se fazer farinha. É mais resistente a climas secos e a algumas pragas.
  • Milho doce: possui uma maior quantidade de amido e de frutose, o que gera um gosto adocicado. É bastante requerido em algumas partes do mundo, para se comido in natura, cozido ou ser usado para se preparar diferentes pratos doces. Também pode ter diferentes colorações como o "milho duro". 
  • Milho de pipoca: diferente do que se pensa, não é qualquer milho que se usa para se fazer pipoca. Já algum tempo, os agricultores passaram a cultivar espécies especificas de milhos, os quais são variações da categoria duro, para se produzir especificamente milho para pipoca. De fato o milho de pipoca, o grão é menor, é mais duro e ligeiramente pontiagudo. 
  • Milho transgênico: variedades geneticamente modificadas em laboratório, cujos principais intuitos são melhorar o desenvolvimento da planta em quantidade de grãos, espigas, além de torná-la mais resistente a pragas e variações climáticas. Alguns pesquisadores defendem a ingestão de milhos transgênicos, outros ainda se mostram receosos quanto a possíveis efeitos colaterais. Não obstante, o milho transgênico consiste em variações das categorias acima citadas, e até mesmo categorias híbridas. Hoje muitos produtos a base de milho, são feitos com milhos transgênicos.
As sementes dos deuses: 

Entre alguns povos das Américas como os MaiasAstecas, Incas, Zapotecas, Toltecas, o milho tornou-se uma planta sagrada. Embora o cacau também fosse uma planta sagrada para tais povos, o papel religioso do milho ia bem mais além. O cacau era considerado sagrado no sentido de alimento, uma bebida ritualística consumida pela nobreza e o clero. Todavia, o milho além de ser um alimento sagrado e uma das bases da alimentação de vários povos americanos, o milho também surgia como um elemento mitológico com uma fonte de criação divina, uma verdadeira dádiva dos deuses. 


“Dentre todos esses recursos, o milho se tornará — por excelência — o alimento básico da Mesoamérica, a tal ponto que se lhe atribuirá um papel determinante em certas lendas relativas à criação do mundo e, dentro da mitologia de cada povo, aparecerá dei ficado sob aspectos bastante diversos, como veremos a seguir. Essa é a razão por que, quando nos debruçamos sobre o problema das origens e domesticação do milho nessas regiões do antigo México, facilmente temos tendência a falar de uma verdadeira "invenção", de um "milagre" do milho. Miraculosa é, de fato, a persistência com a qual, de uma forma sem dúvida mais instintiva do que consciente, o homem soube fazer dessa minúscula planta, através de milênios de cruzamentos e cuidados, as esplêndidas espigas que conhecemos hoje em dia”. (GENDROP, 1987, p. 6). 

Muitos dos livros maias foram destruídos pela intolerância religiosa de alguns clérigos e militares espanhóis, os quais consideraram se tratar de obras heréticas, as quais supostamente pregavam a "palavra de Satã". No entanto, alguns padres e freis menos ignorantes e intolerantes, conseguiram preservar alguns desses livros e até mesmo traduziram parte de seu conteúdo para o espanhol. Uma dessas obras é o Popol Vuh. A obra de teor mitológico, narra mitos da origem do mundo, de alguns deuses, da vida, dos homens, etc. Neste caso, é nessa narrativa mitológica que encontramos um dos mitos maias sobre a criação do ser humano, o qual remete ao milho como sendo uma das bases para a origem da humanidade. 

O mito conta que os deuses decidiram criar a humanidade, primeiro eles criaram homens feitos da lama. O "homens de lama" não conseguiam ficar de pé, e quando chovia, eles ficavam encharcados e se desmanchavam. Eles também não sabiam falar direito, apenas emitiam ruídos guturais. Tais homens não sabiam pensar. Então os deuses destruíram os "homens de lama", e decidiram tentar novamente. A matéria-prima escolhida foi a madeira. Os "homens de madeira", eram de consistência mais firme, o que permitiu que se movimentassem. Eles sabiam falar, mas não sabiam pensar. Não possuíam coração e nem alma. Suas faces eram rígidas como a madeira. Eram seres ignorantes. Então os deuses os destruíram e tentaram uma terceira vez. (SCHUMAN, 2001, p. 25-27).

Enquanto os deuses se reuniam novamente para pensar qual matéria-prima usariam para tentar criarem a humanidade novamente, quatro animais foram visitá-los: um gato da montanha, um corvo, um coiote e um papagaio. Os quatro animais disseram aos deuses que havia uma bela e rica planta que cresciam ali nas proximidades. As divindades seguiram os quatro animais e avistaram um milharal. Os deuses pegaram algumas espigas de milho, moeram os grãos até formarem farinha, então misturaram com água, para virar uma massa. Com essa massa eles moldaram quatro homens, os chamados "Quatro Pais". Em seguida os deuses ofereceram aos novos homens, uma pasta de milho, a qual lhes deu força e energia. Posteriormente, enquanto dormiam, os deuses criaram quatro mulheres, tornando-se suas esposas. As "Quatro Mães". (SCHUMAN, 2001, p. 28).


Pintura representando a terceira criação da humanidade, segundo a mitologia maia, a qual narra que quatro homens foram criados a partir de uma massa feita de farinha de milho. 
Os "Quatro Pais" agradeceram aos deuses, dizendo que eles sabiam falar, se movimentar, pensar e sentir. A nova humanidade possuía um corpo forte, saudável, de carne, osso e sangue. Possuía rostos expressivos, possuía mente, coração e alma. O milho havia se tornado a matéria-prima para se criar a humanidade segundo os mitos maias, daí ter se tornando uma de suas principais plantas sagradas, pois ao ingerir o milho, as pessoas consumiam a essência da criação. (SCHUMAN, 2001, p. 29).


Pintura representando a criação das "Quatro Mães", as quais se tornaram as esposas dos "Quatro Pais". 
No caso dos Astecas sua mitologia também nos fornece elementos associados ao milho. Os astecas como outros povos da Mesomérica (embora eles sejam oriundos da América do Norte, de uma terra mítica chamada Aztlan), consideravam o milho como uma planta sagrada e inclusive seu consumo era considerado algo quase que ritualístico. Todavia, diferente dos maias o qual narram um mito antropogônico (criação do homem), os astecas não possuem um mito similar e se possuíam, hoje se desconhece. No entanto, existe uma importante história a qual narra que o deus-sol Quetzalcoalt (chamado de Kukulcán pelos maias), ensinou a humanidade o cultivo do milho. 

Quetzalcoalt além de ser uma divindade solar, foi um importante deus cultuado entre alguns povos da América Central, pois era um "deus civilizador". Diferentes mitos atribuem a Quetzalcoalt a responsabilidade de ter ensinado a humanidade a agricultura, a construção, as leis, a política, as artes, a escrita, etc. Sendo assim, percebe-se o porque este deus está associado ao cultivo do milho, um dos principais gêneros alimentícios daqueles povos. 


O deus Quetzalcoalt representado no Codex Borbónico
De acordo com um mito asteca, em certa ocasião o deus avistou uma formiga carregando um grande grão de milho. Ele perguntou a formiga onde ela havia achado aquele grão. A formiga respondeu que a achou na montanha Tonacatepelt. O deus ficou intrigado com o grão de milho, então se transformou numa formiga e seguiu a formiga anterior. A formiga que carregava o grão de milho retornou a montanha Tonacatepelt, então Quetzalcoalt viu vastos milharais, além de plantações de feijões, pimentas e outras plantas comestíveis. O deus estava interessado em ajudar a humanidade (característica bastante associada a essa divindade em distintos mitos, a função de protetor e professor da humanidade). Quetzalcoalt pegou um grão de milho e levou até a povoação humana mais próxima. (SCHUMAN, 2001, p. 89).

Os homens ficaram maravilhados com aquele grão dourado, que nunca haviam visto antes. Quetzalcoalt teve a ideia de levar a montanha Tonacatepelt para próximo da aldeia, mas não conseguiu remover a montanha, mesmo seus poderes divinos foram ineficientes para isso. Então ele foi pedir a ajuda dos deuses, e dois deuses chamados Oxomoco e Cipactonal abriram a montanha ao meio, revelando sua abundância de alimentos, mas isso irou o deus da chuva Tlaloc, o qual ordenou que seus filhos roubassem toda a comida. Porém, o deus da chuva deixou que os homens ficassem apenas com o grão de milho que Quetzalcoalt havia lhe presenteado. Com isso Tlaloc passou a controlar a quantidade de alimento produzida pelos homens. (SCHUMAN, 2001, p. 91).

O milho também estava associado a algumas divindades específicas tanto no panteão maia, quanto asteca, inca e de outros povos. Entre os astecas Richard F.  Townsend um dos mais renomados especialistas sobre civilizações pré-colombianas apontou uma profunda ligação entre deuses relacionados ao milho, associados a cultos agrícolas. Townsend identificou três deuses astecas associados ao cultivo do milho. E em seu estudo ele percebeu que cada uma das divindades estavam relacionadas com etapas do plantio e colheita. 

A deusa Xilonen ("Jovem Milho") era representada como sendo uma jovem mulher, a qual usava uma guirlanda feita de folhas de milho ou segurava espigas e flores de milho. Era responsável pela época do plantio, simbolizando a fertilidade do campo. Chicomecoalt ("Sete Serpentes") era uma mulher mais madura, e representava a colheita do milho, mas também seu armazenamento para a próxima estação. Cinteolt ("Espiga de Milho Sagrada") era o deus associado ao consumo do milho. Nesse sentido o consumo tanto normal quanto ritualístico, envolvendo alguns tipos de alimentos feitos de milho, o que incluía uma bebida chamada xocoalt (uma espécie de cerveja de milho). (SCHUMAN, 2001, p. 95).


Estátua da deusa Chicomecoalt, datada de entre os séculos XIV e XVI. 
“Maize harvest time was cause for a religious ceremony. Ears of maize were bundled up to represent Cinteotl and were stored in places of honor—special granaries where they would be kept until the sowing of the seeds the following spring. At the harvest fiesta, girls wore headbands and necklaces of popcorn dyed in festive colors. Meanwhile, priests performed a kind of religious magic so that each year the maize would be protected from bugs, diseases, and its other natural enemies”. (SCHUMAN, 2001, p. 95). 

Entre os maias as divindades do milho variaram entre deidades femininas e masculinas. Não obstante existem uma problemática nesse assunto: desconhece-se com precisão o nome deste deuses. Sendo assim, alguns estudiosos questionam se tais deuses não seriam outros deuses conhecidos, mas que estivessem associados ao milho, e não divindades específicas como no caso asteca. De qualquer forma comentarei um pouco acerca dos deuses maias do milho. 

Karen Bassie-Sweet (1999, p. 4) aponta que hoje os estudiosos consideram a existência de talvez dois deuses do milho e uma antiga deusa do milho. Acerca da deusa, as informações são escassas. A principais referências sobre as divindades maias relacionadas ao milho datam do Período Clássico Maia (250-900 a.C), onde encontramos alguns poucos relatos escritos e iconográficos, pois parte do material se perdeu no tempo ou foi destruído. Isso inclui o fato de que hoje não se sabe o nome de nenhum dos deuses maias do milho. 

Quanto aos "deuses" do milho, cujos nomes são desconhecidos, os estudiosos os nomearam de acordo com algumas de suas características: o Deus do Milho com Tonsura e o Deus do Milho com Adornos. Tais nomes advém dos adornos de cabeça com que as divindades eram retratadas na arte. Karl Taube (1983) realizou um estudo acerca das representações iconográficas dos deuses do milho, apontando distintas variações para os adornos usados por eles, o que simbolizariam aspectos de ordem religiosa, cultural e social, associando a divindade a nobreza, ao clero, e a determinadas épocas do ano e do plantio, etc. Taube também conjecturou que na prática não seriam dois deuses, mas um mesmo deus com atributos distintos (algo visto em outras religiões e mitologias). O Deus do Milho com Adornos, era representado como um homem jovem, simbolizando o plantio, a fertilidade e fecundidade. Por sua vez, o Deus do Milho com Tonsura, representaria o momento do milho amadurecido, o momento da colheita. 


O Deus Maia (com tonsura) representado num codex maia. Nessa imagem o deus atua como escriba, uma das características atribuídas a essa divindade não apenas agrícola, mas também com aspectos culturais, neste caso, o ensino da escrita. 
Entre os incas, a divindade do milho era feminina, chamada Mama Sara, uma das mais importantes deidades agrícolas para o povo Inca e outros povos das regiões andinas. Mama Sara estava diretamente relacionada com a agricultura, embora principalmente do milho, mas a agricultura geral, além de está associada também com cultos de fertilidade e fecundidade. Ritos agrários eram realizados em sua homenagem nas épocas de plantio e colheita, além de até mesmo se fazer bonecas de pano ou de palha, vesti-las com espigas de milho.


Estátua contemporânea retratando Mama Sara, a deusa inca do milho.
"Segundo os huicholcs, povo montanhês disperso por vários estados do México, originalmente o milho foi presente do sol - através do seu filho, que o derramou sobre o homem, e de sua filha, que ensinou o homem a cultivá-lo. Como punição pela ingratidão humana, impuseram-lhe um longo período de maturação e a necessidade de muito trabalho". (FERNÁNDEZ-ARMESTO, 2004, p. 61).  

Os europeus conhecem o milho:

No ano de 1493, Cristóvão Colombo (1451-1506), havia levado mudas de cana de açúcar para a ilha de Hispaniola (atual ilha do Haiti e República Dominicana), sendo responsável por originar o primeiro canavial das Américas. No entanto, na viagem de volta naquele mesmo ano, ele levou alguns grãos de milho, pois havia ficado interessado por aquele cereal amarelo, o qual era a base da alimentação dos indígenas de várias ilhas do Caribe. Naquele tempo, Colombo e os demais navegantes ainda não havia pisado no continente. De qualquer forma, o milho foi distribuído para alguns fazendeiros na Espanha, e rapidamente conseguiu se aclimatar ao clima espanhol. No começo do século XVI, já havia algumas pequenas plantações de milho nas províncias de Castela, Andaluza e Catalunha. Na década de 1520, milho já era cultivado no leste de Portugal. (FLANDRIN; MONTANARI, 1998, p. 539). 

Enquanto os espanhóis levavam a cabo sua conquista de parte das Américas, subjugando os impérios Asteca (1519-1521) e Inca (1531-1533), o cultivo de milho se espalhava por parte da Europa. Por volta de 1523 algumas plantações foram cultivadas em Bayonne, na França, e depois no norte da Itália (na década seguinte chegou a República de Veneza). Já próximo da metade do século XVI, o milho já era cultivado na Panônia  e na península dos Bálcãs, no sudeste europeu. 

Em alguns locais como a França, o milho era chamado de "milho de Espanha"No caso de Portugal, os comerciantes portugueses passaram a usar a palavra milho, termo advindo do latim millet, o qual era usado para designar grão. Porém, o termo também era usado pelos portugueses para diferenciá-lo do milhete, planta aparentada do milho, mas cultivada na África, Ásia e na Europa, daí também se encontrar o antigo termo "milho-graúdo". Outros nomes usados eram "milho espanhol", "milho-da-guiné" e "trigo-do-peru". (FERNÁNDEZ-ARMESTO, 2004, p. 265). 

“Spreading across Europe, maize acquired a series of binomial labels, each roughly translated as “foreign grain”: In Lorraine and in the Vosges, maize was “Roman corn”; in Tuscany, “Sicilian corn”; in Sicily, “Indian corn”; in the Pyrenees, “Spanish corn”; in Provence,“Barbary corn” or “Guinea corn”; in Turkey, “Egyptian corn”; in Egypt, “Syrian dourra” (i.e., sorghum); in England, “Turkish wheat” or “Indian corn”; and in Germany, “Welsch corn” or “Bactrian typha.” The French blé de Turquie (“Turkish wheat”) and a reference to a golden-and-white seed of unknown species introduced by Crusaders from Anatolia (in what turned out to be a forged Crusader document) encouraged the error that maize came from western Asia, not the Americas (Bonafous 1836)”. (MESSER, 2000, p. 105). 

Os ingleses adotaram a palavra maize, uma variação da palavração espanhola maíz (milho), que por sua vez, os espanhóis retiraram essa palavra da língua taíno, falada por alguns povos caribenhos, o qual usavam a palavra mahiz. Todavia, com o desenvolvimento das Treze Colônias a partir do século XVII, na América do Norte, os colonos ingleses levaram algumas variações de milho para cultivar em suas novas terras, mas lá eles se depararam com plantações nativas. Nesse ponto, Messer (1998, p. 105) diz que alguns colonos começaram a se referir ao milho dos indígenas chamando-os de "indian corn" (grão indígena). Todavia, a palavra corn, era usada genericamente para se referir a qualquer grão (inclusive o trigo também era chamado de corn), acabou se popularizando como sinônimo de milho. Hoje em dia a maioria dos falantes da língua inglesa, usam corn ao invés de maize

Colonos ingleses encontram o milho indígena, em Massasshusetts. 
Todavia, o milho demorou séculos para cair no gosto dos europeus. Ao longo do XVI e XVII, o milho diferente do açúcar, do chocolate e do café não era uma mercadoria de luxo, era principalmente cultivado para ser usado como forragem para alimentar o animais como cavalos, porcos, galinhas, etc., como também servia de alimentação para os agricultores mais pobres, os quais não tinham dinheiro para comprar outros cereais como trigo, aveia, centeio e cevada. É preciso salientar que o milho, o milhete e a batata figuraram por muito tempo como alimentos associados as classes baixas. Por exemplo, na França do XVII, Luís XIV, não consumia batatas, pois considerava um alimento indigno da nobreza, o mesmo se aplicava ao milho e outros gêneros vegetais. 

"Em verdade, a história do milho é prejudicada pelo fato de ter sido cultivado primeiro pelos camponeses, em suas hortas, sem pagar dízimo nem taxas senhoriais, deixando poucos vestígios nos arquivos. Assim, torna-se difícil reconstruir sua história. É com o crescimento demográfico do século XVIII que agrônomos, filantropos e proprietários de terras se interessam realmente por essa planta de rendimento miraculoso. Na Panônia, no século XVIII, ele rendia até 80 grãos por um, enquanto o centeio, a custo, rendia seis e o trigo menos ainda". (FLANDRIN, MONTANARI, 1998, p. 539). 

Enquanto nas Américas, as colônias espanholas, francesas, inglesas e portuguesa desde cedo começaram a cultivar milho, tornando-se uma das bases da alimentação dos colonos, algo principalmente visto nas colônias espanholas da América Central e nos Andes, na Europa, apenas a partir do século XVIII, o milho começou a ser cultivado em massa, e deixou gradativamente de ser um alimento restrito aos pobres, ganhando o gosto de outras camadas sociais. No século XIX, em regiões de Portugal, Espanha, Irlanda, França e Bélgica, o milho e a batata tornaram-se os principais alimentos cultiváveis. (FLANDRIN; MONTANARI, 1998, p. 569).


Mas essa adoção do milho como alimento básico da alimentação europeia não ocorreu de um dia para o outro. Como visto, foi a partir do século XVIII que ele começou a se expandir. As pessoas em algumas partes do continente começaram a substituir as bolachas e papas feitas de cevada, centeio, aveia e trigo, pela polenta de milho. Todavia, em alguns casos a alimentação puramente a base de milho pode se revelar problemática. 

Flandrin e Montanari (1998, p. 540) menciona que nas Astúrias, na Espanha, em 1730, foram registrados os primeiros casos de pelagra, doença ocasionada pela carência de vitamina B3 ou PP. Isso devia que grande parte da alimentação daquelas pessoas era de milho, e o milho não possui essa vitamina. Sem tratamento, a pelagra pode ocasionar a morte, e houve caso de mortes. Isso foi posteriormente associado ao milho, como sendo o único culpado, o que contribuiu para negativizar e reduzir seu consumo. Mortes causadas por pelagra foram registradas na França, Itália e os Bálcãs, em regiões onde a alimentação era pobre em nutrientes e vitaminas, e em geral a base da alimentação era o milho. 

Ainda no século XVIII, Carlos Lineu (1707-1778) o "Pai da Taxinomia", responsável por criar o nome científico de dezenas de espécies de animais e plantas, concebeu o nome científico do milho, chamando-o de Zea mays. O nome mays em particular é interessante, pois Lineu o concebeu a partir do povo Maia, pois supunha-se na época dele que os Maias teriam sido o primeiro povo a domesticar o milho. (ORNELLAS, 1978, p. 173). 


Pintura moderna retratando milhos e cestos. Autor não identificado, data não identificada. 
Os usos do milho: 

Diferente do açúcar, do café e do chocolate, os quais possuíram e possuem usos bem mais diversos, o milho essencialmente era usado para a alimentação e ainda hoje mantém essa condição. Todavia, em alguns casos e lugares, havia outros usos para o milho, e neste caso não apenas para seus grãos, mas também para outras partes da planta. 

Entre alguns povos ameríndios como os maias, o milho como visto, consistia numa planta sagrada, num alimento sagrado. Ele era representado em monumentos, esculturas, pinturas, etc., simbolizando fartura, prosperidade, vida, etc. Nota-se aqui claramente elementos de simbolismo religioso associado a esta planta. Não obstante, com a cristianização destes povos, principalmente no México, onde tal processo começou mais cedo, o milho ainda continuou a manter um caráter sagrado, tal fato era visível na condição de que em alguns locais a hóstia, não era feita de farinha de trigo, mas de farinha de milho, o que revela esse hibridismo religioso em ainda se manter o uso do milho como alimento sagrado. Embora que deva-se mencionar uma ressalva: o trigo por muito tempo foi escasso nas Américas, e como o milho era o cereal mais abundante, para além de motivos religiosos, era a única matéria-prima em abundância a estar disponibilizada. 


Festival do milho asteca. Florentine Codex, c. XVI. 
O milho também foi usado por povos ameríndios como oferenda, sendo ofertado principalmente em rituais agrícolas, mas também em outros tipos de ritos e cerimônias associadas as divindades rurais, a prosperidade, fertilidade, vida, fartura, etc. Nos grandes Estados da Mesomérica e dos Andes, o milho era um dos tributos pagos pela população para seu governador ou rei, e até mesmo tributo pago por povos vassalos, como no caso dos Astecas e dos Incas, os quais governavam dezenas de povos. Por exemplo, a cidade de Toluca no Vale do México, anualmente tinha que pagar um generoso tributo a cidade de Tenochitlán, capital do Império Asteca. 


“Toluca devia fornecer, duas vezes por ano, 400 carregamentos de peças de algodão, 400 carregamentos de mantas em ixtle decoradas, 1.200 carregamentos de peças de tecido de íxtle branco, e, uma vez por ano, seis "celeiros" de milho, vagens e grãos oleaginosos, e mais 22 trajes solenes”. (SOUSTELLE, 1983, p. 22). 


“O principal centro comercial da cidade situava-se em Tlatelolco. Sobre uma imensa praça rodeada de arcadas e próximo a uma pirâmide, existia um mercado, ao qual compareciam diariamente de 20 mil a 25 mil pessoas, e de 40 mil a 60 mil pessoas a cada cinco dias. Enormes quantidades de mercadorias, cada qual com uma localização determinada, eram aí trocadas: tecidos e vestimentas, plumas e jóias, peles e plumagens, milho, vagens, pimentas, legumes, frutas e ervas, pássaros e caça, peixes, rãs vasos, utensílios de sílex, obsidiana e cobre, madeira, tabaco e cachimbos, móveis e esteiras. Havia lojas de boticários, cabeleireiros, vendedores de bolos de milho e guisados assados. Uma polícia especial zelava pela boa ordem do tianquiztli (mercado), e um tribunal composto de três magistrados estava permanentemente a postos para resolver os litígios”. (SOUSTELLE, 1983, p. 42). 

Nesse ponto, o cacau também teve uma característica similar, embora que entre os Astecas e seus povos vassalos, as sementes de cacau fossem usadas como moeda de troca, mas parece que o milho também foi usado nesse sentido para o comércio. 

O cultivo do milho também estava associado a passagem do tempo, ao calendário e até a astronomia. Povos como os olmecas, toltecas, maias, astecas e incas, usavam a astronomia não apenas para mensurar o tempo, através de calendários lunares e solares, mas também para determinar o início das estações do ano, e as épocas propícias para o plantio e a colheita. Como o milho era o principal gênero alimentício cultivado por estes povos, ele se encontrava no centro de tais questões. (GENDROP, 1987, p. 25). 


“Todos os grandes povos da Mesoamérica sentiram-se poderosamente fascinados pelo mistério do cosmo: a recorrência cíclica e previsível dos fenômenos celestes, o ritmo infatigável das estações e a influência destas nas diversas fases da cultura do milho; o próprio ciclo da vida e da morte, do dia e da noite em sua alternância inexorável mas necessária. Com a finalidade de devassar mais profundamente o segredo dos astros, que para ele representava a vontade dos deuses, o homem mesoamericano moldou, através dos séculos, um aparelho especulativo fortemente complexo”. (GENDROP, 1987, p. 25). 

Observatório de uma cidade asteca. Os reis astecas como outros monarcas da mesomérica, eram ensinados acerca do conhecimento astronômico e mágico, daí alguns deles exercerem funções de sacerdote e até de xamã. Isso fazia parte das suas funções reais e concedia também o status para ser um governante. 
“Diante da pirâmide, alinha-se às vezes uma fileira de nove grupos de estelas-altares não-esculpidas, enquanto, sobre o eixo perpendicular, situa-se, ao sul, um edifício baixo e alongado, dispondo de nove portas; e, na extremidade norte, acha-se um compartimento em alvenaria, aberto por meio de uma porta em forma de abóbada maia e contendo, tal como um cofre, um par de monólitos do tipo estela-altar esculpidos em baixo-relevo. Dentro desse santuário a céu aberto a esteia representa um soberano em atitude ritual, tendo em uma das mãos uma barra cerimonial e fazendo com a outra o gesto do semeador, espalhando grãos de milho ou de cacau. Sobre o altar figuram geralmente, além dos motivos de palma trançada, ou petatillo, também símbolos hierárquicos e prisioneiros amarrados. Segundo Jones, esses complexos geminados, característicos de Tikal, teriam sido concebidos para marcar a passagem de um katún (ou grupo de 7.200 dias) a outro, e utilizados nas grandes cerimônias públicas, onde o halach uinic, de caráter semidivino, oficiando como profeta transmitia os augúrios relativos ao desenvolvimento do katún em curso, assim como os prognósticos individuais”. (GENDROP, 1987, p. 43). 

Retomando o âmbito alimentar do milho este ao longo da História, tornou-se o ingrediente de uma centena de pratos, todavia, comentaremos os usos básicos do milho como alimento. O milho pode ser consumido cru ou cozido, algo que é chamado de comer milho verde. No entanto, ele pode ser descascado e se remover seus grãos, o que permite misturá-lo com outros ingredientes. 


“Tortillas, eaten along with beans and squash seeds (the “triumvirate” of a Mesoamerican meal), constitute a nutritious and balanced diet. In Mexico and Central America, dough is alternatively wrapped in maize sheaths or banana leaves. These steamed maize-dough tamales sometimes include fillings of green herbs, chilli sauce, meat, beans, or sugar. Additional regional preparations include gruels (atoles,) prepared by steeping maize in water and then sieving the liquid (a similar dish in East Africa is called uji); ceremonial beverages made from various maize doughs (pozole, which can also refer to a corn stew with whole grains, or chocolate atole); and special seasonal and festival foods prepared from immature maize (including spicy-sweet atole and tamales). Green corn – a luxury food for those dependent on maize as a staple grain (because each ear consumed in the immature stage limits the mature harvest) – can be either roasted or boiled in its husk”. (MESSER, 2000, p. 103-104). 

Uma típica tortilha de milho. Esse alimento já era consumido pelos indígenas da Mesomérica há muitos séculos. Hoje tortilhas podem ser feitas de trigo, centeio, aveia, batata, mandioca, etc., mas no México as de milho são as mais apreciadas, além de serem a base para diferentes recheios. 

“Andean populations also made maize beers (chicha) of varying potency, which involved soaking and sprouting the grain, then leavening it by chewing or salivation (Acosta 1954). Brewed maize comprised a key lubricant of Incan social life (Hastorf and Johannessen 1993). Unfortunately, by the early period of Spanish occupation, indigenous leaders were reported to be having difficulty controlling intoxication, a problem heightened when chicha was spiked with cheap grain alcohol – a Spanish introduction”. (MESSER, 2000, p. 104).

Chicha, uma cerveja de milho bastante apreciada pelos antigos incas. Ainda hoje é produzida no Peru. 
Por outro lado, o milho pode ser moído até virar diferentes tipos de farinha, o que amplia o seu uso, inclusive para se fazer massa, comumente chamada de polentaA polenta é uma comida bastante comum entre os italianos, os quais desde do Império Romano, já faziam polenta com trigo, aveia, cevada, etc. No século XVI com a chegada do milho no norte da Itália, algumas pessoas começaram a usá-la para fazer polenta de milho. No entanto, pratos similares já eram consumidos nas Américas. A constituição da polenta pode variar desde um estado mais granulado, fino, cremoso, sólido, inclusive podendo ser usada para se fazer pratos salgados como normalmente é usada, mas também para pratos doces. A polenta de milho tornou-se a base de para uma variedade de pratos pelo mundo, sendo consumida cozida, assada e frita. 


Um prato de polenta de milho verde com moela e molho de tomate. Um exemplo da variedade de pratos que se pode fazer a base da polenta de milho. 
No Brasil o milho demorou para se tornar um dos principais alimentos da época da colônia. Não se sabe quando ele foi introduzido no país, já que os indígenas da América Portuguesa não o conheciam, além do fato de cultivarem essencialmente a mandioca e a macaxeira. Todavia, os portugueses introduziram o milho nas terras brasileiras ainda no século XVI, pois o cronista Gabriel Soares de Sousa, autor de Tratado Descritivo do Brasil (1587), já menciona o cultivo de milho. 

Gabriel Soares comenta que os portugueses cultivavam o milho principalmente para alimentar animais como cavalos, porcos, cabras, galinhas e patos, inclusive mesmo a população pobre não tinha o hábito de comer com regularidade milho. Todavia, o milho fazia parte da ração oferecida aos escravos. Quanto aos indígenas algumas tribos adotaram o seu cultivo, e passaram a incluí-lo na sua dieta, comendo-o principalmente assado. Eles também faziam mingaus e angu (comida semelhante a polenta). Todavia, Gabriel Soares destacava que os indígenas preparavam um tipo de bebida alcoólica feito de milho, a qual lembrava mais um mingau do que uma cerveja, devido a espessura do caldo. Ainda assim eles apreciavam essa bebida (embora que os indígenas brasileiros também fizessem uma bebida alcoólica a base de caju). (SOUSA, 2014, p. 176-177).

Enquanto a culinária indígena brasileira a base de milho praticamente se restringia ao preparo de mingau, angu e de uma beberagem, a qual Marcgrave dizia que era chamada de abatiti, os portugueses quando começaram a apreciar o milho, passaram a fazer bolos, pães, biscoitos e pudins. Por sua vez povos africanos, introduziram a culinária brasileira outros tipos de papas, angus e munguzás, todos feitos de milho. Alguns destes povos conheceram o milho ao chegarem ao Brasil, outros já o conheciam das colônias portuguesas em África, onde a planta era plantada. (CASCUDO, 2004, p. 108). 

Com o passar do tempo, as comidas de milho tornaram-se parte integrante da alimentação do brasileiro e ainda hoje estão relacionadas com os festejos juninos, os quais ocorridos no mês de junho, celebram São João, São Pedro e Santo Antônio. Tornou-se comum que durante esse mês, principalmente na região nordeste brasileira, onde esse festejo é mais tradicional e influente, associá-lo ao consumo de comidas de milho. Inclusive existe um ditado brasileiro que diz: "o mês de junho sem milho, que alegria pode ter?". 

Nesta época do ano o consumo de milho aumenta consideravelmente, principalmente o de milho verde cozido. Todavia, aumenta-se também a produção de diferentes tipos de comida de milho como pamonha, canjica, broa de milho, bolo de milho (ou bolo de fubá), pratos de origem portuguesa, sendo que a pamonha e a canjica surgiram no Brasil; por sua vez, dos indígenas temos os mingaus e angus, e do lado africano, vieram o cuscuz e o munguzá. Todos estes pratos a base de milho são comidos normalmente em algumas partes do Brasil, mesmo fora do período junino, embora seja mais comum consumir pamonha e canjica nessa época. 


Algumas comidas típicas de milho, feitas para as festas juninas no Brasil. Podemos ver pamonhas, canjica, munguzás e bolos. 
No México, Peru, Colômbia, Estados Unidos, Portugal, Espanha e em outros países ainda sobrevivem festivais do milho, embora que no caso americano, tais festivais são remanescências de antigas tradições religiosas, lembrando que o milho para alguns povos indígenas era um alimento sagrado, possuindo até deuses específicos. No caso do Brasil, não temos um festival do milho (mas feiras agrônomas), porém, o milho torna-se a comida típica de um outro festival religioso, sendo esse de origem cristã católica, as festas de celebração aos santos evangelistas João e Pedro, e a santo Antônio de Lisboa, um dos mais importantes santos portugueses. 

O uso alimentício é variado, poderia citar outras receitas, mas aqui não é um estudo gastronômico. De qualquer forma, voltarei a comentar o uso do milho para alimentação mais adiante, já partindo do século XIX, com o advento da industrialização. Mas antes, falarei de outros usos para a planta. 

Desde tempos antigos, a planta do milho já era reaproveitada para outras tarefas. O sabugo era dado de alimento para alguns animais, as folhas eram usadas para forrar cestas, cestos, pratos, mesas, etc., o caule poderia ser usado como lenha. As folhas secas (chamada palha do milho), poderiam ser desfiadas e com isso se confeccionava tiras para se fabricar artesanato. No Peru, faziam-se bonecas de palha de milho em homenagem a deusa do milho Mama Sara. No México e no Brasil, em alguns locais faz-se artesanato com milho. As tiras são usadas para se fazer uma diversidade de objetos, inicialmente a maioria das vezes empregados para se confeccionar cestos, cestas, tapetes, esteiras, etc., hoje em dia a palha do milho ainda conserva tais características, mas é usada principalmente para motivos de enfeite, ampliando seu uso, e até mesmo tornando-o ainda mais artístico. (MESSER, 2000, p. 104). 


Artesanato brasileiro feito com base na palha do milho. 
Após esse breve interlúdio, retomaremos o uso alimentício do milho. Como assinalado, no princípio do XIX, o milho já havia se espalhado pelo mundo. Na Ásia ele era cultivado em larga escala na China, Índia e em alguns países do sudeste asiático. Também era cultivado no Oriente Médio, mas em menor escala. Na África, o Egito e Marrocos eram os principais cultivadores de milho, embora a planta tenha se espalhado por vários outros países tanto da costa ocidental quanto da oriental. Na Europa, o milho também já havia se consolidado no século XVIII inclusive como a base da alimentação de várias comunidades agrárias, o que contribuiu para a escassez de outros gêneros alimentícios, no que resultou em surtos de pelagra, como já comentado. 

No XIX, com o advento da industrialização na Europa e posteriormente sua migração para os Estados Unidos e depois gradativamente para outros países do mundo, os EUA tornaram-se com o tempo uma potência em produção de milho em escala global. Embora os colonos ingleses não tenham sido os responsáveis por introduzir seu cultivo no continente, pois diferentes povos indígenas já cultivavam milho desde a Idade Antiga, foram os colonos e posteriormente americanos, que difundiram o milho pelo que se tornou os Estados Unidos da América. 

Por volta de 1840, na Inglaterra, amido de milho já era usado na indústria têxtil para se engomar tecidos. John Polson, William Polson e John Brown começaram a pesquisar uma fórmula de tornar o amido mais fino. Dois anos depois eles obtiveram êxito, e fundaram ainda em 1842, a Brown & Polson, uma fábrica de amido de milho voltada para a indústria têxtil. Nessa mesma época em Nova Jersey, nos Estados Unidos, Thomas Kingsford também desenvolveu sua receita de amido de milho, também voltada para a indústria têxtil. Posteriormente Kingsford fundou sua própria companhia como fizeram os Polson e Brown. Todavia, apenas anos depois o amido de milho entraria no mercado alimentício. Em 1854, John Polson Jr desenvolveu uma nova receita de amido, sendo essa voltada para a alimentação. O amido em si consiste num tipo de farinha, bem fina, a qual misturada com água torna-se uma pasta. 

No mesmo ano, nos Estados Unidos, Wright Duryea pedia demissão da Kingsford's Company, para abrir sua própria fábrica de amido de milho, a Corve Stach Manufacturing, cujo um dos principais produtos comercializados era o amido de milho chamado Maizena. A marca que hoje é bastante conhecida por suas tradicionais caixas amarelas ainda nos anos de 1850, ganhou prêmios devido as altas vendas e a qualidade do produto. 


Antiga propaganda da Maizena, no século XIX. Em 1874 o produto chegou aos mercados brasileiros e logo se tornou um sucesso de vendas. Hoje maisena é sinônimo de amido de milho. 
Os usos do amido foram sendo desenvolvidos ao longo do restante do XIX e do XX. O amido de milho passou a ser usado na confecção de pães, bolos, biscoitos, mingaus, cremes, coberturas, sopas, pastas, comidas de bebê, doces, salgadinhos, massas pré-cozidas, cereais, etc. Devido a sua versatilidade como sendo uma farinha eficiente e razoavelmente barata, muitos passaram a preferir comprar amido de milho do que outros tipos de farinhas de milho. Além do fato de que hoje em dia alguns amidos são produzidos a partir de milhos transgênicos. 

Também no XIX outro uso alimentício do milho foi para se fazer pipoca. Neste caso é interessante dizer que nem todo tipo de milho é propício para se fazer tal comida. O milho de pipoca possui grãos menores, mais duros e levemente pontiagudos. Os indígenas da Mesomérica já havia notado essa variedade de milho e até faziam pipoca, embora a comida não fosse tão apreciada como hoje em dia. Os próprios espanhóis quando a viram pela primeira vez a acharam estranha. De fato a popularização da pipoca foi algo bem tardio, começando na década de 1880, nos Estados Unidos, onde a empresa Charles Cretors, sediada em Chicago, desenvolveu a primeira pipoqueira. 

Até então a pipoca era consumida em casa e em pequena quantidade. A pipoqueira foi um invento que revolucionou o consumo de pipoca, tornando-a um produto acessível nas ruas. Na década seguinte, a Charles Cretors investiu também na venda de café e amendoins torrados, mas a venda de pipoca ainda continuava crescendo, ainda mais quando as pipoqueiras começaram a serem levadas para as feiras e eventos. Em 1893 na feira de Chicago's Columbian Exposition, Charles Cretors apresentou novos modelos de suas máquinas e uma nova receita de pipoca, a pipoca doce, feita com caramelo. No entanto, a pipoca somente se popularizou de fato no século XX, quando passou a ser um alimento recorrente em eventos, jogos, feiras, exposições, cinemas, etc. (MESSER, 2000, p. 104). 


O modelo Improved No. 2 Wagon da Cretors, uma das primeiras pipoqueiras da História. Datada dos anos de 1880. 
Além deste uso alimentício, o amido de milho também é usado como matéria-prima para se fazer alguns tipos de bioplásticos, açucares industrializados, entre outros produtos. E nesse ponto o milho também é usado para se produzir óleo e combustível. No caso do óleo de milho, os indígenas já haviam notado que quando espremiam os grãos de milho para se fazer farinha, saiam deles um óleo. Todavia o uso propriamente do óleo de milho somente começou a se difundir a partir do século XIX. Ainda hoje o principal uso do óleo de milho é voltado para a cozinha, sendo um dos vários óleos vegetais (óleo de soja, trigo, canola, amendoim, girassol, algodão etc.) usados para se fritar alimentos, estando entre um dos mais saudáveis para isso. Entretanto o óleo de milho também possui outros usos industriais, servindo de biocombustível, e de ingrediente para se fazer produtos como sabão, pomadas, tinturas, etc. 


O óleo de milho foi outro grande trunfo conquistado com a industrialização alimentícia. 
Embora seja usado em alguns casos como biocombustível, o óleo de milho não é eficiente para mover veículos grandes como automóveis, e para isso desenvolveu-se o etanol de milho (também chamado de álcool de milho). Atualmente o maior produtor de etanol de cana de açúcar do mundo é o Brasil, mas o maior produto de etanol de milho são os Estados Unidos, os quais produzem a maior parte do milho consumido no planeta. A produção de etanol de milho é mais custosa do que o etanol de cana de açúcar devido ao fato de ser mais demorado o processo das enzimas quebrarem o açúcar dos grãos de milho, além de que por hectare, o milho produz menos do que a cana. Mas como os milharais americanos são vastos, isso acaba equilibrando os gastos. E e fato, o etano de milho nos últimos anos vem ocupando uma fatia generosa no mercado de milho. 
Esquema representando o processo de fabrico do etanol de milho. 

“The three major cereal grains – maize, wheat, and rice – supply 50 percent of the world’s calories. In 2009, the most important was maize (817 million tons), more than 40 percent of it grown in the United States, but an increasing proportion of this was used for the production of ethanol and the feeding of animals. Next came wheat (682), closely followed by rice (678), with all the rest much less significant: barley (150), sorghum (62), millet (32), oats (23), rye (18), and triticale (15). The dominance attained by the cereals depended partly on the increased area of cropland devoted to their growth but also on improvements in yield which had occurred only slowly and in tiny increments down to the eighteenth century but then speeded by the second Agricultural Revolution”. (HIGMAN, 2012, p. 69). 

A maior parte do milho produzido nos Estados Unidos é para produção alimentícia e de etanol. A produção de alimentos tanto para pessoas quanto para animais, pois o milho é usado para a fabricação de ração de gados e aves. No caso da alimentação humana, os americanos estão entre os maiores consumidores de salgadinhos, biscoitos, cereais e pipocas. Lembrando que o amido de milho não é usado apenas para se fazer alimentos a base de milho, mas alimentos de outro sabores, daí seu grande uso. Muitas empresas logo descobriram isso no final do XIX e começo do XX. 

Propaganda de 1948, dos cereais Kellogg's
O milho se espalha pelo mundo: 

A partir do século XVI o milho começou sua jornada para se espalhar pelos outros continentes. Dois séculos depois ele já era cultivado na Europa, África e Ásia. Entre os séculos XVII e XVIII, o milho passou a ser cultivado em algumas regiões do Egito, Síria, Palestina, Arábia e em outras áreas do Oriente Médio, embora não tenha se tornado uma planta importante para aqueles países. Por sua vez no XVIII, o milho tornou-se uma das bases alimentares de comunidades montanheses na Grécia, Sérvia e Romênia, o que para Fernández-Armesto (2004, p. 265), contribuiu para manter estas comunidades, as quais em parte foram responsáveis pelos movimentos separatistas frente o domínio Otomano

Gravura de ritual da dança da chuva realizado por uma comunidade de ciganos, na Romênia, onde se pedia chuva para se começar o plantio do milho. 1905. 
“A century earlier, maize had penetrated the Balkan, Slavonia and Danube regions, and Serbs were reported to be producing cucurutz (maize) as a field crop at a time when other grains were scarce. By the mideighteenth century, it was a staple of the Hapsburg Empire, especially in Hungary. By the end of the eighteenth century, fields of maize were reported on the route between Istanbul and Nice, and it had likely been an earlier garden and hill crop in Bulgaria. Maize appears to have entered Romania in the beginning of the seventeenth century, where it became established as a field crop by midcentury. T. Stoianovich (1966) traces the complex of Greek-Turkish and Romanian-Transylvanian names for maize across the region and shows how the crop was incorporated into spring planting and autumn harvest rites of local peoples”. (MESSER, 2000, p. 105). 

No século XVI os portugueses começaram a introduzir o cultivo de milho em seus arquipélagos da Madeira, Açores, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Na Madeira e em Cabo Verde o milho se adaptou bem e ajudou bastante no sustento de sua população inclusive as mudas que foram enviadas ao Brasil, pelo que sugeriu Câmara Cascudo (2004, p. 112) teriam vindo de Cabo Verde. 

Mulheres portuguesas da Ilha da Madeira, produzindo polenta de milho. 1821. 
No século XVI, navegantes portugueses levaram as primeiras mudas de milho para a Indonésia. Na época eles que para lá iam atrás de especiarias, inclusive algumas ilhas do arquipélago das Molucas eram chamadas de "ilhas das especiarias", pois ali se encontravam canela, cravo-da-índia, baunilha, bálsamo, sândalo, mostarda, pimentas, etc., os portugueses acabaram deixando algumas mudas de milho por lá e outras plantas. (HIGMAN, 2012, p. 52). No século XVII, os britânicos introduziram na China, o cultivo de algumas plantas naquele país, como a batata e o milho. De acordo com Grew (1992, p. 61-62), a introdução de plantas como a batata-doce, o milho e o amendoim foram responsáveis por uma "segunda revolução agrícola" na China, alterando hábitos, formas de consumo e técnicas rurais, pois até então o grosso da produção chinesa era a rizicultura (cultivo de arroz), além de outros cereais locais. 


“Maize, fan mai (Western or foreign wheat), was introduced into China before the mid-sixteenth century, both overland from India and Burma via Yunnan province and also through the coastal provinces of Fujian and Zhejiang. Given the preference for glutinous cereals in many regions of Asia, a glutinous variety has developed through natural selection. If the sweet potato was most closely identified with the smallholder food culture of the coastal parts of the country, maize was the staple of the people living in the inland highlands”. (GREW, 1992, p. 68). 

No caso da Índia, há dúvidas de quem teria levado o milho para a península. Alguns apontam os portugueses como responsáveis, mas outros sugerem os ingleses, os quais no século XVII, começaram a fazer acordos comerciais com o Império Mogol, no norte da Índia. Ainda no século XVII, o milho já era cultivado no oeste da península, sendo chamado de makkai ou makkhi (milho de Meca, pois acreditava-se que a planta viera da Arábia). Como na China e em vários países europeus, o milho era cultivado principalmente para alimentar as populações mais pobres e os animais de fazenda, na Índia isso não foi diferente no começo. (GREW, 1992, p. 72). 

Fotografia de um milharal em Thana Swat Ranizai, Paquistão. 
“In most areas of India, maize is commonly eaten as a snack food of roasted unripe cobs. This type of maize consumption became so common throughout urban India that special varieties evolved that were only suited to being eaten in unripe form. This variety only took three months to grow. As one late-nineteenth-century source noted, "Nearly every peasant grows a few plants near his homestead." Roasted cobs were popular in every town, village railway station, and market; and selling them could apparently be lucrative as a line of business. Maize was, thus, transformed from a primary staple into a casual fast food in much of India; its impact by the same token remained limited”. (HIGMAN, 2012, p. 73). 

Foi também a partir do XVII, com o estabelecimento das primeiras colônias britânicas na América do Norte, que novas variedades de milho foram introduzidas no continente. Assim como para alguns povos indígenas norte-americanos o milho já consistia numa pare importante de sua dieta, para os colonos ingleses o milho também foi de suma importância para manter o processo colonizador, o qual originaria os Estados Unidos da América. 

“Corn nourished the U.S. livestock industry, the slave economy, and westward expansion. It served as the foundation of the typical U.S. diet – high in meat and dairy products, which are converted corn – and, indeed, of the U.S. agricultural economy. North American populations of European and African ancestry historically turned maize into breads, grits, and gruels. They ate corn in the forms of mush; “spoon bread” (a mush with eggs, butter, and milk); simple breads called “hoecakes” (or “pone”); whole grains in “hominy”; and mixed with beans in “succotash.” Coarsely ground “grits” were boiled or larded into “crackling bread,” “scrapple,” “fritters,” and “hush puppies,” or were sweetened with molasses and cooked with eggs and milk into “Indian pudding.” Culinary elaborations of green corn, for which special varieties of sweet corn were bred, ranged from simple roasted (which caramelizes the sugar) or boiled “corn on the cob” with butter, to chowders and custards. Scottish and Irish immigrants fermented and distilled corn mash into corn whiskey (“white lightning” or “moonshine”) or aged and mellowed it into bourbon, a distinctively smooth American liquor named for Bourbon, Kentucky, its place of origin”. (MESSER, 2000, p. 104). 

Colheita do milho em Iowa, Estados Unidos. 2011. 
A partir do final do século XVIII o milho começou a se espalhar para outros países africanos, embora já fosse cultivado no continente desde o XVI, a recepção climática e cultural ao milho foi lenta. No final do XVIII, plantações começavam a se espalhar pela Nigéria, Congo, Benin e Tanzânia. A expansão continuaria no século seguinte, quando o milho se tornou um dos principais cereais cultivados no continente africano. (MESSER, 2000, p. 106). 

“Curiously, maize was never accepted in the British realm, where it continued to be “an acquired taste,” a sometime famine or ration food, or a grain to feed livestock. During the great Irish famine of 1845, the British government imported maize for food relief – to keep down the prices of other foods and provide emergency rations for the poor. Maize boasted the advantages of being cheap and having no established private “free trade” with which government imports might interfere. Unfortunately, Ireland lacked the milling capacity to dry, cool, sack, and grind it, and in 1846 a scarcity of mills led to the distribution of the whole grain, which was described as irritating rather than nourishing for “half-starving people” (Woodham-Smith 1962). Maize shortly thereafter began to play an important role in British famine relief and as ordinary rations for workers in Africa”. (MESSER, 2000, p. 105).

No século XXI, o milho já encontra bem espalhado pelo mundo. Nas Américas os maiores produtores são os Estados Unidos, México, Brasil e Argentina. Em termos de médio produtores destacam-se Paraguai, . Na Europa destacam-se a Rússia, Romênia, Ucrânia, etc. Embora que em termos de produção de médio porte, incluem-se a Alemanha, Itália e França. Em África, a África do Sul é o maior produtor de milho, sendo seguido pelo Egito e Zâmbia, entre outros países com produções medianas. Já na Ásia, a China e Índia ainda dominam esse cenário, algo que já fazem a séculos. Embora a Filipinas vem ganhando destaque na produção de milho transgênico. (ABRAMILHO, 2011). 

Tabela com a produção em toneladas de milho, de 2003 a 2009, mostrando os maiores produtores de milho no mundo. Tabela extraída do site da EMBRAPA. 
Considerações finais: 

Embora a industrialização tenha desenvolvido outros usos para o milho como o artesanato, o etanol, o óleo, o uso na indústria têxtil, o uso dos seus açúcares e amido para o fabrico de corantes, tinturas, tintas, entre outros produtos, ainda assim, o principal emprego do milho foi e ainda consiste em ser a base da alimentação de várias pessoas no mundo. Diferente do açúcar, do café e do chocolate, o milho teve um papel mais profundo nem tanto na economia da Idade Moderna, já que foi apenas a partir do XIX que ele começou a despontar economicamente, mas ainda assim seu grande papel foi como alimentador das massas. 

Desde a Antiguidade até os dias de hoje, o milho mantém esse caráter de ser a base alimentícia de muitos povos, algo que cresceu bastante com sua expansão pelo mundo, encaminhada pelos europeus, principalmente portugueses, espanhóis e ingleses. Não obstante esse valor do milho era tanto para alguns povos que ele era visto como um alimento sagrado e divino. Para alguns povos das Américas o milho era uma verdadeira dádiva dos deuses, uma fonte de vida, ao ponto de servir como oferenda, como tributo, como imposto e como moeda de troca comercial. 

E esse papel de mantenedor da vida não foi algo apenas percebido pelos povos indígenas americanos, mas por outros povos do mundo. O milho ajudou a evitar a fome, mas em alguns casos contribuiu para a desnutrição, acarretando casos de pelagra, algo visto na Europa dos séculos XVIII e XIX, e também em outros locais do mundo, pois embora o milho seja rico em calorias, possui uma baixa quantidade de gorduras, em termos de vitaminas ele é pobre. Ainda assim, o milho é atualmente um dos três cereais mais consumidos do mundo, ao lado do trigo e do arroz. Mesmo que você diga que não tem hábito de comer comidas de milho, eventualmente você comerá pipoca, salgadinhos e cereais, além do fato de que algumas massas de pão, bolo, biscoito, etc., levavam amido de milho. 

NOTA: Embora o uso do espantalho seja mais associado ao milharal, diferentes povos já usavam espantalhos há muitos séculos, e em diferentes tipos de plantação. Todavia, a cultura americana popularizou os espantalhos nos milharais, normalmente vinculados a histórias sombrias e de terror. Daí termos filmes de terror com espantalhos. Embora que no livro O Mágico de Oz (1900), o Espantalho fosse um personagem gentil, ingênuo, mas que se descobre ser sábio, pois ele desde o começo desconfiava de sua própria inteligência e sabedoria. 

Referências bibliográficas: 
BASSIE-SWEET, Karen. Corn deities ands the complementary male/female principle. Trabalho apresentado na Terceira Mesa Redonda de Palenque, México, Julho de 1999, publicado em 2000. 
CASCUDO, Luís da Câmara. História da alimentação no Brasil. 3a ed. São Paulo, Global, 2004. 
FERNÁNDEZ-ARMESTO, Felipe. Comida: uma história. Tradução de Vera Joscelyn. Rio de Janeiro, Editora Record, 2004. 
FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo (eds). História da alimentação. Tradução de Luciano Vieira Machado e Guilherme J. F. Teixeira. São Paulo, Estação Liberdade, 1998. (Capítulo Os tempos modernos, p. 532-559). 
GENDROP, Paul. A civilização maia. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1987. 
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Referências da Internet: 

Links relacionados:
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